os subterrâneos







“Os Subterrâneos”
Jack Kerouac
Relógio D’Água Editores
Setembro 2006
Tradução de Paulo Faria




“Outrora, nos meus tempos de juventude, não me sentia tão desorientado e conseguia falar sobre todos os assuntos com uma inteligência nervosa e com lucidez e sem preâmbulos literários tão verbosos como este; por outras palavras, esta é a história de um homem que não tem confiança em si próprio, mas é ao mesmo tempo a história de um egocêntrico, naturalmente, não a posso contar num tom sarcástico – vou simplesmente começar pelo princípio e deixarei que a verdade venha à tona aos poucos, eis o que farei -. Tudo começou numa noite quente de Verão – ah, ela estava sentada num guarda-lama com Julien Alexander, que é... deixem-me começar pela história dos subterrâneos de São Francisco.

[...]

«Não vou dizer nada», pensei - «Vais achar que eu não sou homem se não desatar aos gritos?»
«Exactamente como naquela guerra de que te falei.»
«As mulheres também têm as suas guerras -»
Ah, o que havemos de fazer? Penso – agora vou para casa e está tudo acabado, de certeza, não só ela está agora enfastiada e farta disto tudo mas além disso trespassou-me com um adultério ou coisa que valha, foi inconstante, tal como fora profetizado num sonho, o sonho, a porcaria do sonho – imagino-me a agarrar Yuri pela camisa e a atirá-lo ao chão, ele saca de uma grande navalha, eu agarro numa cadeira para o espancar, toda a gente está a olhar para nós... mas prolongo a minha fantasia e fito-o nos olhos e vejo subitamente o olhar ofuscante de um anjo brincalhão que fez da sua presença na terra uma interminável brincadeira e dou-me conta de que também esta história com Mardou foi uma brincadeira e penso «Anjo Cómico, exaltado entre os subterrâneos.»
«Querido, tu é que sabes», eis o que ela está a dizer efectivamente, «quantas vezes me queres ver e isso tudo – mas é como eu te digo, quero ser independente.»
E eu volto para casa tendo perdido o amor dela.
E escrevo este livro.”

4 comments:

«quantas vezes me queres ver e isso tudo – mas é como eu te digo, quero ser independente.»
E eu volto para casa tendo perdido o amor dela.
E escrevo este livro.”

a perda inspira.nos? podes crer que sim *

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sobre o subterrâneo, o da existência, ler, claro, os cadernos do subterrâneo do dostoievski.

Kerouac no seu melhor. Parabéns pelo blogue

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