água, cão, cavalo, cabeça


A velha que treme da cabeça, no café

.

O silêncio, não como na missa ou no exército. O susto que nos suspende por completo vem de dentro. Como se os meus pés existissem no momento antes e desaparecessem no momento a seguir.
Vais morrer, meu caro. Prepara os teus sapatos pretos, é necessário comprar sapatos pretos, não te esqueças.
Uma velha sentada no café treme da cabeça, não a consegue segurar, por vezes faz mesmo o gesto (de a tentar agarrar), mas também já não tem força nas mãos, e a vida é reles, é banalidade, é asco e sangue. Nos cafés, nas camas com os amantes, na cadeira à espera da morte do pai, na rua, desprevenido, morre-se em todo o lado, em todo o espaço e em todo o tempo; já deve ter acontecido (às centenas) durante a missa, durante um funeral já milhares devem ter morrido, caíram no chão, pensa-se de imediato num desmaio: por quem choramos agora se há dois mortos e para onde vamos se há dois cortejos a avançar em direcções opostas?

(...)


TAVARES, M. Gonçalo, água, cão, cavalo, cabeça, Editorial Caminho, Lisboa, 2006.

The Moon and Sixpence


“He did not come much to Papeete after that, and about a year later it chanced that I had to go to that part of the island for I forgot what business, and when I had finished it I said to myself: "Voyons, why should I not go and see that poor Strickland?" I asked one or two natives if they knew anything about him, and I discovered that he lived not more than five kilometers from where I was. So I went.

I shall never forget the impression my visit made on me. I live on an atoll, a low island, it is a strip of land surrounding a lagoon, and its beauty is the beauty of the sea and sky and the varied colour of the lagoon and the grace of the cocoa-nut trees; but the place where Strickland lived had the beauty of the Garden of Eden. Ah, I wish I could make you see the enchantment of that spot, a corner hidden away from all the world, with the blue sky overhead and the rich, luxuriant trees. It was a feast of colour. And it was fragrant and cool. Words cannot describe that paradise.

And here he lived, unmindful of the world and by the world forgotten. I suppose to European eyes it would have seemed astonishingly sordid. The house was dilapidated and none too clean. Three or four natives were lying on the verandah. You know how natives love to herd together. There was a young man lying full length, smoking a cigarette, and he wore nothing but a pareo."


"The Moon and Sixpence", William Somerset Maugham, Dover Value Editions

o princípio turco

Moris Farhi
Young Turks
Saqi Books, 2004



1: Rifat
In the Beginning

In the beginning, there is Death.
All creatures meet it at birth. Animals never forget the encounter. With very few exceptions, we humans always do, even tough we haggle with it several times a day. This commerce is never conducted with the brain or the heart, as we might expect, but with the genitals. The tinglings we feel between our legs are not always caused by sexual desire or fear. Mostly, they document our negotiations withe the Clattering Skeleton.

(...)

13: Aşık Ahmet
Go like Water, Come Like Water

Death stirs again, my child. Her portal is glistening with dew. What a glourious sight! Any minute now this âşık, this lover, will witness the Godhead.
She's letting me have one final cigarette. Time for last words.
Home truth two: Don't be fooled when people tell their cultures and civilisations are superior to yours. Such paranoia afflicts much of European and the US. Just remember every culture, every civilisation, every literature has in own splendour.
Home truth three: Remember you can neither change your roots nor transplant them. So be proud of them. Relish them.
Home truth four: Be a Loving Man. Always. And to everybody.
Home truth five: You went like water. Now come back like water.
The cigarette is finished. She is wrapping her legs around me ...
Farewell, my child, my dear, dear child ...

Os Poemas Possíveis


Metáfora
.
Trago nas mãos um búzio ressoante
Onde os ventos do mar se reuniram,
e das mãos, ou do búzio murmurante,
alastra em cor e som irradiante
A beleza que os olhos despiram
.
.
SARAMAGO, José, Os Poemas Possíveis, Editorial Caminho, Lisboa, 1985 (5º edição).

Deambulações Oblíquas


É porque nos decepcionamos
que procuramos a perfeição
O símbolo é o arco que abarca a totalidade
e por ele nós podemos alcançar
o que está do outro lado dela
.
A transcendência do que não vemos
a outra face do todo
é uma perspectiva simbólica
inerente à imediata presença
da face que estamos vendo
.
Assim o que vemos e o que não vemos
no objecto que estamos olhando
é a coisa em si que o animal não apreende
Não somos nunca o que está diante e separado
o que representa e o representado
em separada oposição
de ideia e objecto
de consciência e corpo
.
O que em nós está separado
em espírito e em corpo
está ao mesmo tempo unido
numa tensão oblíqua
que nos insere no mundo
E como seres simbólicos
e como seres-no-mundo
somos o que já somos
somos o que ainda não somos

ROSA, António Ramos, Deambulações Oblíquas, Quetzal Editores, Lisboa, 2001.

enlevo paginado

Saul Bellow
Collected Stories
Penguin Books, 2001


BY THE ST. LAWRENCE
NOT THE ROB REXLER
?
Yes, Rexler, the man who wote a those books on theater and cinema in Weimar Germany, the author of Postwar Berlin and the controversial study of Bertol Brecht. Quite an old man now, it turns out, tough you wouldn't have guessed it from is work, physically handicapped - not disabled, only slightly crippled in adolescence by infantile paralysis. You picture a tal man when you rea him, and his actual short, stooped figure is something of a surprise. You don't expect the author of those swift sentences to have an abrupt neck,a long jaw, and aknot-back. But these are minor items, and in conversation with him you quickl forget his disabilities.

(...)

AFTERWORD
The reader will open his heart and mind to a writer who understood this - has understood because in his person he has gone trough it all, has experienced the same privations; who knows where the sore spots are; who has discerned the power of the need to come back to the level on one's true human destiny. Such a writer wil trouble no one with his one vanities, will make no unnecessary gestures, indulge himself in no mannerisms, waste no reader's time. He will write as short as he can.
I offer this brief appendix to the stories in this volume.


a criação do princípio


David Leeming with Margaret Leeming
A Dictionary of Creation Myths
Oxford University Press, 1994


Acoma Creation

The Acoma Indians of New Mexico live in an ancient pueblo commonly called Sky City, since it is perched atop a 600-foot maternal mound or butte. Like many Western American Pueblo cultures, Acoma society is matrilineal (ownership is passed down trough the female line). Not surprisingly, then, the Acoma creation is orchestrated by a female spirit and is representative of the emergence type of creation myth, a birth process that begins in the earth womb (see also Creation by Emergence)

(...)

Zuni Creation
The Zuni pueblo in New Mexico is the home of well-preserved and viable culture. Zuni ceremonies and myths reflect that viability in their intensity and complexity. The creation myth is no exception. Like the creation stories of the other pueblos, it is an emergence myth (see also Creation by Emergence). It is also an example of the ex nihilo creation (see also Creation from Nothing) and of creation by thought.

ZEN E A ARTE DE AMAR


Nós estamos destinados a viver uma vida de amor. Quando não estamos apaixonados é porque algo de errado se passa. Infelizmente, muitos de nós resignamo-nos perante a desilusão, a perda e a desordem nas relações. Ainda que possamos ser muito bem-sucedidos em outras áreas da vida, a maioria de nós não sente que o mesmo grau de sucesso no amor seja um direito natural seu. "Ser realista no que toca aos relacionamentos" é a atitude que se considera natural à medida que "crescemos" e deixamos de alimentar fantasias, tolices, sonhos de infância. Mas nada poderia estar mais longe do que é natural. (....) Não nos apercebemos de que quando não estamos apaixonados algo não está bem.
.
Estar apaixonado é a coisa mais madura e realista que se pode fazer. Traz energia às nossas vidas, preenche-nos com uma disposição positiva, desperta a generosidade e torna cada momento pleno de beleza. Estar apaixonado dissipa de forma imediata a sensação de falta de propósito e de desconecção com que muitos se confrontam. O corpo é sarado, o coração fica feliz.
.
Estar apaixonado é o nosso estado natural.
.
(...)
.
SHOSHANNA, Brenda, Zen e a Arte de Amar, Editorial Presença, Lisboa, 2006.

o fim da ciência

John D. Barrow
Impossibilidade
Os limites da ciência e a ciência dos limites
Ed. Bizâncio, Lisboa 2005


As estantes estão cheias de livros que dissertam sobre as conquistas da mente e sobre os chips de silício. As pessoas esperam que a ciência lhes diga o que pode e o que deve ser feito. Os governos procuram ajuda dos cientistas para melhorar a qualidade de vida e esperam que esses mesmos cientistas nos protejam de "progressos" anteriores. Os futurólogos consideram que a investigação humana não tem limites, enquanto os cientistas sociais consideram que o monte de problemas que esta suscita nunca mais tem fim. A visão que os média apresentam do futuro da ciência é dominada pelas nossas expectativas de grandes intervenções: a decifração do código genético humano, a cura de todas as doenças físicas, a manipulação dos próprios átomos do universo material e, finalmente, o fabrico de formas de inteligência que ultrapassam a nossa. O progresso humano assemelha-se, cada vez mais, a uma corrida à manipulação, em grande e pequena escala, do mundo que nos rodeia.

(...)

Vivemos em tempos estranhos. Vivemos também em lugares estranho. À medida que investigamos mais profundamente as estruturas lógicas interligadas que suportam a natureza da realidade, acredito que podemos esperar encontrar mais destes resultados profundos que limitam o conhecimento. O nosso conhecimento do Universo tem uma pequena vantagem. Finalmente, talvez cheguemos a descobrir que a vantagem fractal do nosso conhecimento do Universo define o seu carácter com mais exactidão do que o seu conteúdo, que o que não pode ser conhecido é mais revelador do que o que pode sê-lo.

Uma Casa na Escuridão


ERA UMA VEZ O FIM DE TARDE. Era um Setembro entre os Setembros da minha vida. Estava sentado na varanda, na cadeira de baloiço, a ler um livro de páginas amarelecidas pela última luz. Baloiçava-me muito devagar, como se tivesse adormecido a baloiçar-me e as pernas continuassem mecânicas a fincar no chão e a elevar-me lentamente. Na outra ponta da varanda, diante da porta da cozinha, a minha mãe estava sentada no cadeirão grande. A escrava miriam tinha acabado de lhe dar banho a de a pentear. Os gatos estavam deitados em pequenos montes a respirar o chão.


(… )

Fui feliz e, nesse momento, morri.

PEIXOTO, José Luis, Uma Casa na Escuridão, Temas e Debates, Lisboa, 2002(1.ª edição)

O Fio da Navalha


"Difícil é andar sobre o aguçado fio de uma navalha; é árduo, dizem os sábios, é o caminho da Salvação."




"Eu fora admitido, durante a minha permanência em Chicago, como sócio temporário de um clube que dispunha de uma boa biblioteca; na manhã seguinte, fui até lá passar os olhos por uma ou duas revistas universitárias, que quem não é assinante tem dificuldade em obter. Era cedo e lá só havia mais uma pessoa, sentada numa vasta poltrona de couro e parecendo absorta na leitura. Foi com surpresa que reconheci Larry. Era a última pessoa que esperaria encontrar em tal lugar. Ergueu os olhos quando passei por ele, reconheceu-me e fez menção de se levantar.
- Não se incomode - disse eu. E depois, quase que automaticamente: - Que está a ler?
- Um livro - replicou ele, mas com um sorriso tão simpático que a secura da resposta não podia melindrar.
Fechou o livro e, fitando-me com aqueles seus olhos singularmente opacos, segurou-o de modo a não me deixar ver o título.
- Divertiu-se muito ontem à noite? - perguntei.
- Muitíssimo. Cheguei a casa às cinco da manhã.
- É uma façanha estar aqui tão cedo.
- Venho muito aqui. Em geral, a esta hora tenho a sala à minha disposição.
- Não o incomodarei.
- O senhor não está a incomodar-me - disse, sorrindo de novo; ocorreu-me então que o seu sorriso era de uma extraordinária doçura. Não animado, nem vivo; era um sorriso que parecia iluminar-lhe o rosto com alguma luz interior. Estava sentado num recanto formado por prateleiras salientes. Apoiou a mão no braço da poltrona a seu lado e prosseguiu: - Não quer sentar-se um pouco?
- Está certo.
Larry entregou-me o livro que segurava. Vi que se tratava de Principles of Psychology, de William James. É, naturalmente, uma obra clássica, e importante na história da ciência de que se ocupa; de agradável leitura, além do mais; mas não era o tipo de livro que esperaria ver nas mãos de de pessoa tão nova, um aviador, que dançara até às cinco da manhã.
- Porque lê isto? - perguntei.
- Sou muito ignorante.
- É também muito novo - repliquei sorrindo"



(...)



"- Era um homemzinho baixo de cabelos vermelhos, um irlandês - disse Larry. - Costumávamos chamar-lhe Patsy e tinha mais vivacidade que qualquer outra pessoa que jamais conheci. Céus, era como o azougue! Tinha uma cara engraçada e um sorriso engraçado, de modo que, só de olhar para ele, a gente sentia vontade de rir. Era um diabo temerário e fazia as maiores loucuras; estava sempre a ser chamado à ordem pelos superiores. Não sabia o que era medo e, depois de ter escapado da morte por um triz, o rosto alargava-se-lhe num sorriso, como se aquilo fosse a coisa mais engraçada deste Mundo. Mas era um aviador nato e, lá em cima, nas nuvens, sabia ser frio e cauteloso. Ensinou-me muita coisa. Era um pouco mais velho que eu e tomou-me sob a sua protecção; isto era realmente um pouco cómico, considerando-se que eu tinha bem umas seis polegadas a mais de altura que ele e, se por um acaso brigássemos, poderia pô-lo K.O. em dois tempos. Foi o que aconteceu, certa vez, em Paris, quando ele estava bêbado e fiquei com medo de que se metesse em algum sarilho.
Larry fez uma pausa e continuou:
- Não me sentia muito à vontade quando me reuni ao esquadrão e tinha medo de não me sair bem, mas ele obrigou-me a ter confiança em mim. Tinha ideias engraçadas acerca da guerra; não sentia ódio aos alemães; gostava de lutar e achava divertidíssimo combatê-los. Não podia considerar o facto de deitar abaixo um avião inimigo a não ser como uma coisa engraçadíssima. Era imprudente e louco e irresponsável, mas ao mesmo tempo, tão sincero que a gente não podia deixar de lhe querer bem. Daria a um companheiro a sua última moeda, com a mesma facilidade que aceitaria a dele. Se um de nós se sentia isolado, ou com saudades de casa, ou com medo, como algumas vezes me aconteceu, ele logo o percebia e, a cara feia a enrugar-se de riso, dizia exactamente aquilo que podia fazer a gente sentir-se bem outra vez.
Larry puxou uma cachimbada e Suzanne esperou que ele continuasse.
- Costumávamos manobrar de forma a ter as nossas licenças junto e, quando íamos para Paris, ficava endiabrado. Divertíamo-nos à grande. Íamos ter uns dias de licença, em princípios de Março, isto em 1918, e traçámos os nossos planos de antemão. Nada havia que não prentendêssemos fazer! Na véspera da partida, recebemos ordens de voar sobre as linhas inimigas e apresentar o nosso relatório. De súbito, demos com alguns aviões alemães e, quando menos esperávamos, estávamos no meio de uma batalha. Um deles perseguiu-me mas apanhei-o primeiro. Olhei para ver se ele ia cair e vi outro aparelho no meu encalço. Mergulhei para ver se escapava, mas o inimigo aproximou-se como um relâmpago e pensei que estava liquidado; nisto vi Patsy cair sobre ele como se fosse um raio e despejar-lhe todas as munições que tinha. Os alemães deram-se por vencidos e fugiram e nós voltámos às nossas linhas. O meu avião estava bastante avariado e mal consegui aterrar. Patsy chegara antes de mim. Quando desci do meu avião, vi que tinham acabado de o tirar do seu. Estava deitado no chã; esperavam que chegasse a ambulância. Ele sorriu, ao ver-me. Disse:
- Derrubei aquele tipo que vinha atrás de si.
- Que foi que aconteceu, Patsy? - perguntei.
- Oh, nada. Atingiu-me na asa.
Estava mortalmente pálido. De súbito uma expressão estranha cobriu-lhe o rosto. Só nesse momento percebeu que estava agonizante; a ideia da morte jamais lhe passara pela cabeça. Antes que alguém o pudesse impedir, sentou-se e soltou uma gargalhada:
- Ora, essa é boa!
Caíu morto. Tinha vinte e dois anos. Ia casar-se, quando acabasse a guerra, com a noiva que deixara na Irlanda."



"O Fio da Navalha", W. Somerset Maugham, Edição Livros do Brasil, 1967, Tradução de Lígia Junqueira Smith

os subterrâneos







“Os Subterrâneos”
Jack Kerouac
Relógio D’Água Editores
Setembro 2006
Tradução de Paulo Faria




“Outrora, nos meus tempos de juventude, não me sentia tão desorientado e conseguia falar sobre todos os assuntos com uma inteligência nervosa e com lucidez e sem preâmbulos literários tão verbosos como este; por outras palavras, esta é a história de um homem que não tem confiança em si próprio, mas é ao mesmo tempo a história de um egocêntrico, naturalmente, não a posso contar num tom sarcástico – vou simplesmente começar pelo princípio e deixarei que a verdade venha à tona aos poucos, eis o que farei -. Tudo começou numa noite quente de Verão – ah, ela estava sentada num guarda-lama com Julien Alexander, que é... deixem-me começar pela história dos subterrâneos de São Francisco.

[...]

«Não vou dizer nada», pensei - «Vais achar que eu não sou homem se não desatar aos gritos?»
«Exactamente como naquela guerra de que te falei.»
«As mulheres também têm as suas guerras -»
Ah, o que havemos de fazer? Penso – agora vou para casa e está tudo acabado, de certeza, não só ela está agora enfastiada e farta disto tudo mas além disso trespassou-me com um adultério ou coisa que valha, foi inconstante, tal como fora profetizado num sonho, o sonho, a porcaria do sonho – imagino-me a agarrar Yuri pela camisa e a atirá-lo ao chão, ele saca de uma grande navalha, eu agarro numa cadeira para o espancar, toda a gente está a olhar para nós... mas prolongo a minha fantasia e fito-o nos olhos e vejo subitamente o olhar ofuscante de um anjo brincalhão que fez da sua presença na terra uma interminável brincadeira e dou-me conta de que também esta história com Mardou foi uma brincadeira e penso «Anjo Cómico, exaltado entre os subterrâneos.»
«Querido, tu é que sabes», eis o que ela está a dizer efectivamente, «quantas vezes me queres ver e isso tudo – mas é como eu te digo, quero ser independente.»
E eu volto para casa tendo perdido o amor dela.
E escrevo este livro.”

razão consentida

Jorge Urrutia
Leitura do Obscuro
Uma Semiótica de África
Ed. Teorema, 2000


Este livro fala de uma África que não é. Ou melhor, de uma África que é, mas que não está, que está, mas que não existe. Não sou um especialista em estudos africanos nem em etnologia. Também não sou antropólogo. Pouco viajei por África e apenas conheço a África Subsariana.

(...)

No Teseo de André Gide, Édipo explica bem que desejava rebentar não tanto os seus olhos, mas sim a teia, “essa decoração entre a qual me afanava, essa mentira em que tinha deixado de acreditar, para alcançar, por fim, a realidade”.
Porque o Édipo de Gide compreendeu por fim que o olhar se tinha confundido com aquele que é olhado. Por isso, cego, conclui, sem dúvida iluminado: “Oh, escuridão, minha luz!”

encantamento

Elspeth Huxley
The Flame Trees of Thika
Memories of an African Childhood
Plimco Edition, 1998


We set off in a open cart drawn by four whip-scarred little oxen and pilled high with equipment and provisions. No medieval knight could have been more closely armoured than were Tilly and I, against the rays of the sun. A mushroom-brimmed hat, built of two thickness of heavy felt and lined with red flannel, protected her creamy complexion, a long-sleeved white blouse clasped her by the neck, and a heavy skirt of khaki drill fell to her booted ankles.

(...)

I made a face at Tilly. She saw the pawpaw, and frowned; we were trapped, the train had no corridor. She did no hesitate; smiling with all her charm, she asked the red-faced gentleman to help her stow our soda-water bottles on the rack, and in five minutes he was out of her hand. I looked through the open window at the undulating purple ridge-back of the Ngong hill, a haunt of lions and buffaloes, and was glad that I had kissed the four walls of the grass hut at Thika, and was bound to return.

Histórias Falsas



(para o jmnk, porque acho que ia gostar de ler)

“Vieram e atacaram e queimaram e massacraram e saquearam e desapareceram”, assim foi descrito, por um poeta famoso, um ataque mongol, e também assim poderia ser descrita a passagem do amor pelos corpos de Romeu e Julieta. Não os tornados famosos por Shakespeare, mas os outros, os que chegaram a velhos: os da cidade da Baviera.

(…)

Assim, ainda hoje, no centro da cidade, provavelmente no mesmo local onde o fogo ofereceu a carne dos antigos amantes a Deus ou ao diabo (ou aos dois), ainda aí, então, permanece a estátua de Santa Julieta da Baviera: a velha, mandada construir pelo imperador Conrado III, no longínquo ano de 900: milénio e meio depois de Heraclito ter pela última vez louvado a guerra e a discórdia (ou ter sido mal interpretado); e quase um milénio depois de Cristo ter levantado a ingénua hipótese do amor.

TAVARES, Gonçalo M, Histórias Falsas, Campo das Letras, Porto, 2005 (2ª edição).

um bocadinho de inverno


- Vou ter saudades de ti – disse o Coelho. – Vais ter saudades de mim?
- Não – disse o Ouriço.
- Eu vou ter saudades de ti – disse o Coelho.
- Já sei – disse o Ouriço -, ainda agora mo disseste.

- És esquecido – disse o Ouriço.
- Esquecido? – disse o Coelho.
- Se não fosses esquecido – disse o Ouriço -, lembravas-te de por que é que eu não vou ter saudades de ti.

- Lembra-me – disse o Coelho.
- Vou estar a dormir – disse o Ouriço. – Quando estamos a dormir não temos saudades dos amigos.

O Ouriço pegou numa pedra bicuda e foi até à árvore. O Coelho comeu uma ervinha verde, e depois uma florinha, e depois um trevo.
O Ouriço escreveu uma mensagem na casca.

Querido Coelho
por favor guarda-me
um bocadinho
de Inverno
para quando
eu acordar
Saudades
Ouriço
X

(…)

Nesse ano o Inverno foi rigoroso. Caiu neve. O lago gelou. O Coelho estava quentinho na toca, mas tinha fome.

- Isto é que é aborrecido no Inverno – disse o Coelho, enquanto saltava para fora. – Quanto mais frio está, mais comida eu quero.
Olhou em volta.
- E quanto mais frio está, menos comida encontro.

Não havia erva verde.
Não havia trevos verdes.

O Coelho teve de se contentar com coisas castanhas.
Folhas castanhas.
Casca castanha.
Uma bolota castanha.

Quando o Coelho viu as palavras na árvore, ficou tão surpreendido que deixou cair a bolota.
A bolota rolou.
Juntou neve.
Transformou-se numa bolinha de neve.
Ed. Caminho, 2ª edição, Fevereiro 2003, Texto de Paul Stewart, Ilustrações de Chris Riddell

nothing hurts

“Nothing Hurts”, Falk Richter, 1999

1.WINTER

Studio, at night.

Sylvana, in an empty space that could be her studio, is writing a text on a computer, partly saying it aloud, the words becoming visible on a screen. All around her are young men and women putting on records, lying around on sofas, consuming liquids, sleeping with each other or filming themselves and the objects that are lying around with a video-camera (what they film becomes visible on the screen). They approach her, touch her, then distance them selves from her again, join her in speaking the text. Dance and fall to the floor again.

SYLVANA
Yes, it was winter.
Very cold, inside and outside, and motionless, and..
as if someone had torn out my soul and...
and I was now observing myself,
Fear,
or, that the crash...
Suddenly, someone points at me and laughs: “Total wreck” and I’m off, asking anxiously: “Tell me? How do I look?” – “One can tell you’re not feeling to good. But that doesnt matter. It’ll soon pass”...
Such cheerfulness hits out at fear...
or are despair and total desire mingling at the thought of hitting
the ground running again, somewhere –
don’t know –
a feeling that I had to move, dance non-stop,
dance desperately fast and,
and, and...
and when I fell to rest,
there was such a rushing in my head
in all colours, like a smash, a crash, what d’you call it? but very, very slowly, crashing down very slowly.
No, nothing at all in my head crashed into a wall.
Blue, red, alternating
The music moulted, melted, what d’you call it?
who else was there?
(I’d rather be in a soft place now and melt with the bodies around me, warm and soft bodies and music”)
how come that nobodie’s interested in me,
that I’m sort of alone, casually glued to the wall – cool, tragic – or glued to the floor?
And that my energies, completely unfocussed, are flowing through my body and the space –
as if they wanted to hurl themselves out of me,
move right through me and then, together wih me, get out.
I feel that it’s snowing inside of me,
Now that’s no metaphor,
no, I’m not speaking in metaphors now,
inside of me there’s snow falling, and that’s very pleasant, takes the heat, takes the red-hot glow out of my body, freezes over the wounds, puts my
longing for another body
on ice for a moment.

[...]

For the first time on my life I notice this, this, well, what d’you call it, this closeness to death, that one can also just simply go away, that that also is quite simply possible and that one can simply take them all with one, yes that that is possible that that actually interrupts the loneliness, just like that, and then the others feel the wounds not I, hmmm

Pause.

For the firt time in my life I’m noticing this closeness to death, and that one must decide... and that suddenly my energy is running out, that I haven’t got any more energy, am simply empty, am watching myself, noticing how I’m continually just repeating myself, not moving any more, just repeating: Yes, I’m thinking, O God yes, all these people, I don’t love any of them, I work with them, I think, yes, I think, all of these things I have already felt very often.

o resto da minha alegria















“O Resto da Minha Alegria”, Valter Hugo Mãe, Cadernos do Campo Alegre, 1ª edição, 2003



um

façam-no feliz e não
o culpem de nada, digam-lhe
a verdade, que esta
dura morte é ainda o
resto da minha alegria

peçam-lhe que venha tão
depressa, digam-lhe que
não durmo e que estarei
no telhado entristecida a
desbotar ao sol
incomodando os pássaros
cada vez menos

a remoção das almas

depois deus
vai inclinar-se sobre
mim como às labaredas
de uma fogueira

e vai devorar-me
antes de as flores
me façam cheirar bem

até lá,
fica comigo,
surtidos pelos lugares
enquanto o céu senta
o cu nas nossas cabeças.

Loucura


A morte de Raul Vilar foi muito lamentada. Todos os jornais consagraram longos artigos ao grande escultor. Fazendo o seu elogio, escreveram-lhe a biografia, catalogaram-lhe as obras - entre as quais avulta esse admirável baixo-relevo "Amor" - e concordaram unanimemente em que o seu permaturo falecimento havia sido uma grave perda para a arte nacional. Depois, os anos decorreram. Hoje, poucos se lembrarão já do pobre Raul. É por isso mesmo que me decido a falar dele. Para o fazer, ninguém mais competente do que eu. Fui o seu maior amigo, o seu único amigo.
.
Que as minhas intenções não sejam desvirtuadas: este escrito tem por fim simplesmente pôr em evidência todos os elementos que possam servir de base para o estudo duma singularíssima psicologia; que possam tornar compreensível a incompreensível tragédia de uma alma, explicar o inexplicável suicídio.
.
.
(...)
.
.
Raul queria provar o seu amor. Para isso decidiu praticar um crime. Todos o condenam, decerto. No entanto, o que ninguém pode negar é que a sua prova, embora de um egoísmo atroz, não fosse a mais concludente, a maior prova de amor, como lhe chamava. "Só se ama por interesse. Não se ama um corpo disforme". Ele possuia uma criatura ideal; pois bem, destruiria toda a sua beleza. O seu amor não diminuiria... pelo contrário. Morto o corpo, amaria a alma só com a sua alma.
Isto tudo são loucuras, sei perfeitamente. Apenas no cérebro dum doido podem nascer tais pensamentos. Nós, os "homens de juízo", não pensamos nessas coisas, não pensamos em muitas coisas porque aceitámos a vida tal como ela é, tal como se convencionou que ela fosse; porque nos habituámos a ela. Raul não se habitou. Foi um desgraçado. (...)
.
.
Sá-Carneiro, Mário, Loucura, Edições Rolim, Lisboa, 1990 (4ª edição).


Disseram-me uma vez:“Um homem pode sempre fugir, seja lá do que for, mas nunca esconder-se”.
Ao que contrapus:“Ou então pode sempre esconder-se, seja lá do que for, mas nunca fugir”.
Agora estou aqui, sozinho, sentado neste chão de poeira fina e grãos polidos, pronto finalmente para reflectir com profundidade e isenção acerca disso e de tudo o mais que me ocorra pôr em questão.
Mergulho na areia as minhas mãos nuas: agarro dela uma minúscula porção, uma presença, se tanto, num breve instante, e depois, sem mais, deixo que essa imagem se liberte de mim, escorrendo vagarosa por entre os meus dedos silenciosos e imóveis, e vejo-a, sinto-a a regressar novamente ao seu corpo original e imenso, velho como o mundo.
Estou a contar o tempo.
Primeiro, não penso nada. Nada em concreto, penso: as ideias surgem-me aos acaso, leves e impalpáveis, sensações soltas, como o vento, ou a música, e eu deixo-as flutuar em mim ou ir por aí fora, livremente.
Depois, a pouco e pouco, apercebo-me disso, do vento, da música, do que deixo e não deixo ir ou vir, e só então começo a ter um vislumbre real, embora fugaz, de como a minha compreensão das coisas é, afinal, ainda tão fraca, tão confusa e limitada.
Diz-se: “isto é o ar”, ou: “isto é a areia”, ou “isto é a água”.
Mas, ditas as palavras, ar, areia, água, olhamos em redor, e através, e longe, e o que vemos é que nada se alterou, que nada se altera realmente só com as palavras. Então, como uma longínqua e ténue luz que começasse a nascer, de súbito, nas mais profundas e insondáveis trevas, assim nós começamos também, enfim, a conseguir entender que não basta dar nomes às coisas para que o significado dessas coisas aumente, ou diminua, ou se concretize. Porque as coisas existem antes, e o que é importante é conhecer a verdadeira natureza de cada uma delas.
Todavia, dar nomes a tudo é uma das tarefas mais caracteristicamente humanas, porque só mesmo os homens são capazes de lutar e viver e morrer por coisas que apenas existem em nome, no seu espírito, nos seus desejos e inquietações.
O tempo, por exemplo: o que é ele, ao certo? Será que, ao contá-lo, o modificamos? Ou será ele que, pela contagem, nos transforma? Eis algo muito mais grave e decisivo: as transformações, as mudanças.
Nada do que nos rodeia é estático, e nós próprios somos imparáveis: tudo se move, tudo nasce, cresce, evolui e morre, constantemente. Até mesmo o deserto.
E a minha ignorância, a minha vontade de saber: como elas são grandes e inquietas.
Muitas vezes, o que parece não é, e o que é não parece. E por isso penso: poderá um homem sozinho dialogar? Ou então: poderá um homem acompanhado dialogar?
Revejo o espírito das minhas memórias mais terrestres, e sinto, através dele, que nenhuma destas questões é tão estranha como à primeira vista possa parecer: uma completa a outra, e ambas têm os seus fundamentos reais.
É que já estive em lugares, ditos civilizados, e vi coisas sem dúvida muito mais estranhas, que me fizeram reflectir e, com essa reflexão, aprender: havia pessoas a falar sozinhas, e pessoas a falar umas frente às outras e algumas das que falavam não ouviam, e algumas das que ouviam não falavam e havia as que não falavam nunca e as que falavam sempre.
Também já estive fechado em lugares vazios e estreitos, e achei-me, de repente, a falar só, comigo, em voz alta; e estou certo de que falava, realmente, porque me ouvia. Sei bem o que estou a dizer. Tudo à minha volta me ensina a escutar, e eu sei: poderosa é a palavra e poderoso é o silêncio, mas os seus poderes assemelham-se, porque palavra e silêncio são uma e a mesma coisa. Assim, tanto podemos dialogar connosco próprios como dialogar com os outros, porque umas vezes nada nos será dito, e outras vezes nada diremos.
Para crescer, até fazer-se homem, um jovem do meu povo aprende, mais que qualquer outra coisa, a nadar, a caçar, a andar a cavalo e a matar. Tudo isso tem, como é óbvio, as suas doses próprias de prazer e de sofrimento. Digo isto com conhecimento de causa, porque também eu fiz essa aprendizagem. No entanto, depois de todo o tempo que já passou desde então, perturba-me ainda que o conhecimento da morte venha primeiro que o conhecimento da dúvida. Contudo, é esse saber o âmago de todo o guerreiro, e eu, como guerreiro que sou, já devia ter resolvido estas questões antigas, para finalmente viver em paz comigo próprio, sereno com o mundo.
Agora, aqui, sozinho no coração do deserto, pergunto-me: terá um guerreiro o direito à sabedoria que tem?

Pensamentos do guerreiro no coração do deserto, Alexandre Dale
Edição: CPAI, Junho de 1993

Em volta da casa mortuária encontrávamo-nos em pequenos grupos. Falávamos em voz baixa. A morte de Bento Gonçalves era uma grande perda para nós.
- Mais um que mataram! – dizíamos.
Tocou para o rancho, mas não comemos. Soava-nos tão triste aquele bater de louça de alumínio em cima das mesas de madeira, de que não tardaríamos a tirar a mais velha.
Tocou a recolher, mas não dormimos. Na casa mortuária vestiam Bento Gonçalves. Com dificuldade lhe encontrámos uma camisa. Tudo dava. O dinheiro recebido dos trabalhos que fazia para fora ia inteiramente para o colectivo.
Era assim no Campo. Quanto se recebia, fosse dinheiro, medicamentos, comida ou roupas, tudo se confiava ao colectivo, que o distribuía conforme as necessidades.
No Campo iluminou-se a carpintaria. Um grupo de camaradas encaminhou-se para o refeitório e escolheu uma mesa. E, na noite, começámos a ouvir as primeiras marteladas, para a desconjuntar. Ressoavam por todo o campo, repercutiam em nós.
Já distinguíamos todos aqueles sons. Não tardávamos em ouvir os rangidos das serras cortando tábuas, depois novamente o martelar, mas dos pregos, ora mais apressado, ora mais lento. E por fim o silêncio. Estava feito o caixão.
Na caserna não dormíamos. Havia o lampejo de um fósforo a acender um cigarro, o choro abafado de um de nós a recordar gestos ou palavras da vida de Bento Gonçalves, ouviam-se palavras que a revolta, no silêncio, transformava em gritos:
- Miseráveis! Assassinos!
(…)
Foi uma noite serena e quente. Entravam borboletas e voavam em volta da lâmpada da casa mortuária. De quando em quando ouvíamos os brados das sentinelas, que se sobrepunham ao som distante do motor da central eléctrica.
Tocou à alvorada.
(…)
Chegou a camioneta com panejamentos pretos. Ela nos trazia ao Campo, ela nos levava ao cemitério quando morríamos.
Na casa mortuária fechava-se o caixão e os camaradas mais íntimos transportavam-no até à camioneta, enquanto o chefe dos guardas se sentava ao lado do condutor. Subiam para acompanhar o corpo dez camaradas que tínhamos escolhido, um de cada caserna.
Perfilávamo-nos nas duas alas que formáramos, os chapéus caíam nas mãos que desciam quando o caixão saía e era colocado na carrinha.
Começava o desfile.
Sempre assim era quando um camarada morria. A camioneta arrancava e rodava lentamente e, à medida que avançava, íamos desfazendo as alas e caminhando atrás.
Assim seguíamos até ao portão do Campo. A carrinha ficava então oculta por nós, para só se verem os dez camaradas de pé, rodeando o caixão.
Abria-se o portão e a camioneta seguia, depois de uns instantes de paragem em cima da passadeira sobre a vala. Era a última despedida.
Ali ficávamos imóveis, todos nós, magros, esverdeados pelo paludismo, na nossa farda de caqui amarelo, com a mesma expressão de revolta por mais um camarada que o Tarrafal matara.
Arrancava a camioneta e rodava então veloz até ao cemitério da Achada, onde não havia registo, nem toque de sineta, nem flores, nem palavras, mas apenas os dois coveiros cabo-verdianos, à beira do coval aberto no talhão que nos estava destinado.
Caía a terra sobre o caixão e nós cerrávamos o punho na última saudação ao camarada morto e para ele e para nós murmurávamos:
- A luta continuará, camarada!


Tarrafal, Editorial Caminho, Lisboa, 1978 (2ª edição)

Vivir para contarla

"La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla"


A realidade da Colômbia desconhecida do Mundo, a odisseia de um jovem de uma família pobre onde a dignidade é uma presença quase palpável. A miséria e a beleza, a nostalgia e o realismo mágico. A importância dos valores humanos. Uma obra é o seu autor também.

"Vivir para contarla", Gabriel García Márquez, Random House

A Substância do Amor

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Jorge Luís Borges soube que tinha morrido quando, tendo fechado os olhos para melhor escutar o longínquo rumor da noite crescendo sobre Genebra, começou a ver. Distinguiu primeiro uma luz vermelha, muito intensa, e compreendeu que era o fulgor do sol filtrado pelas suas pálpebras. Abriu os olhos, inclinou o rosto, e viu uma fileira de densas sombras verdes. Estava estendido de costas numa plantação de bananeiras. Aquilo deixou-o de mau humor. Bananeiras?! Ele sempre imaginara o paraíso como uma enorme biblioteca: uma sucessão interminável de corredores, escadas e outros corredores, ainda mais escadas e novos corredores, e todos eles com livros até ao tecto.
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(...)
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Ela queira que ele lhe inventasse nomes, sei lá, Vosso Esplendor, Musa Paradisíaca (o nome latino da bananeira), Estrela da Manhã. Coisas assim, tanto pior se parecessem ridículas. Queria declarações personalizadas. Não lhe bastava saber que era a única mulher na vida dele. Queira que ele a fizesse sentir a Única Mulher.
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A Mãe concordou. Porém, ficou aborrecida. O genro era um chato, tinha de reconhecer, mas jogava muito bem xadrez. Sempre que ela ganhava ele dizia: "hoje deixei-a ganhar". A sogra sorria:
- Não. Hoje eu deixei-te perder.
(As mulheres são sempre mais originais).
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AGUALUSA, José Eduardo, A Substância do Amor e outras crónicas, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000 (2ª edição).

antes que anoiteça



Reinaldo Arenas
"Antes que anoiteça"
Edições Asa, 2ª edição , 2001
(tradução: Pedro Tamen)


Eu pensava morrer no Inverno de 1987. Tinha, havia meses, umas febres terríveis. Consultei um médico e o diagnóstico foi SIDA. Como me sentia pior de dia para dia, comprei uma passagem para Miami e decidi morrer perto do mar. Não especificamente em Miami, mas na praia. Mas parece que, por um burocratismo diabólico, tudo o que se deseja se faz esperar, até a morte.


[...]

Por outro lado, não se praticava a prostituição, mas o prazer; era o desejo de um corpo por outro corpo, era a necessidade de satisfação. O prazer realizado entre dois homens era uma espécie de conspiração; algo que se dava na sombra ou em pleno dia, mas clandestinamente; um olhar, um piscar de olhos, um gesto, um sinal, eram suficientes para iniciar o gozo total. A aventura em si mesma, mesmo quando não chegava a culminar no corpo desejado, era já um prazer, uma surpresa.

[...]

Queria escrever e não podia; duas ou três linhas depois de começar soltava o papel e chorava de impotência. Eu dizia-lhe que ele era um escritor mesmo que nunca conseguisse escrever uma só folha, e isso consolava-o. queria que eu o ensinasse a escrever, mas escrever não é uma profissão, é antes uma espécie de maldição; o mais terrível é que ele tinha sido tocado por essa maldição, mas o estado em que os seus nervos se encontravam impedia-o de escrever. Nunca gostei tanto dele como naquele dia em que o vi sentado diante do papel em branco, chorando de impotência por não saber escrever.

[...]

Exorto o povo cubano, tanto no exílio como na Ilha, a que continue a lutar pela liberdade. A minha mensagem não é uma mensagem de derrota, mas de luta e de esperança.
Cuba há-de ser livre. Eu já o sou.

locked-in












Jean-Dominique Bauby
"O Escafandro e a Borboleta"
Colecção Dois Mundos
Edição Livros do Brasil, 1999

(tradução: Clarisse Tavares)



Prólogo
Por trás da cortina de pano roída pelas traças, uma claridade leitosa anuncia a aproximação da manhã. Doem-me os calcanhares, sinto a cabeça apertada num torno, e todo o meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro. O meu quarto sai lentamente da penumbra. Observo pormenorizadamente as fotografias dos meus queridos, os desenhos das crianças, os cartazes, um pequeno ciclista de folha enviado por um camarada na véspera do Paris-Roubaix, e o cavalete que sustenta a cama onde estou incrustado há seis meses como um bernardo-eremita sobre o seu rochedo.
Não preciso de reflectir durante longo tempo para saber onde me encontro e recordar-me de que a minha vida sofreu uma reviravolta naquela sexta-feira, dia 8 de Dezembro do ano passado.
Até essa altura, nunca tinha ouvido falar do tronco cerebral. Naquele dia descobri abruptamente essa peça fundamental do nosso computador de bordo, passagam obrigatória entre o cérebro e os terninais nervosos, quando um acidente cardio-vascular me deixou o dito tronco fora do circuito. Antigamente chamava-se "ligação ao cérebro" e a sua falta provocava simplesmente a morte. O progresso das técnicas de reanimação tornou o castigo mais sofisticado. É possível escapar, mas mergulha-se naquilo que a medicina alglo-saxónica baptizou muito justamente de locked-in-syndrome: paralisado da cabeça aos pés, o paciente fica encerado dentro de si próprio, com o espírito intacto e os batimentos da pálpebra esquerda como único meio de coumunicação.
[...]

Nunca tinha visto tantas batas brancas no meu pequeno quarto. Os enfermeiros, os ajudantes, a cinesioterapeuta, os internos e até mesmo o grande chefe do serviço, todo o hospital se tinha deslocado até ali para a grande ocasião. Quando eles entraram, empurrando o engenho até ao meu leito, julguei, a princípio, que um novo locatário vinha tomar posse do local. Instalado em Berck havia algumas semanas, aproximava-me mais, a cada dia que passava, das margens da consciência, mas não concebia a ligação que poderia existir entre uma cadeira de rodas e eu.
Ninguém me havia traçado um quadro exacto da minha situação e, com base em palavras respigadas aqui e além, forjara a certeza de recuperar muito em breve o gesto e a palavra.
[...]

Com os cotovelos pousados sobre a pequena mesa rolante de fórmica que lhe serve de secretária, Claude relê estes textos que extraímos pacientemente do vazio todas as tardes há dois meses. Sinto prazer em reencontrar certas páginas. Outras desiludem-nos. Tudo isto fará um livro? Enquanto a escuto, observo as suas madeixas escuras, as suas faces muito pálidas a que o sol e o vento mal conseguiram dar um tom rosado, as suas mãos percorridas por longas veias azuladas e o cenário que se tornará a imagem-recordação de um Verão aplicado. O grande caderno azul de que ela preenche cada primeira página das folhas com uma letra regular e conscienciosa, o estojo escolar cheio de canetas de reserva, a pilha de guardanapos de papel prontos para as piores expectorações, e a bolsa de ráfia vermelha da qual extrai, de vez em quando, dinheiro para ir beber um café. Pelo fecho de correr entreaberto da pequena bolsa, observo uma chave de quarto de hotel, um bilhete de metro e uma nota de cem francos dobrada em quatro, como se fossem objectos trazdos por uma sonda espacial enviada à Terra para estudar os métodos de habitat, de transportes e de trocas comerciais em vigor entre os terrestres. Este espectáculo deixa-me desamparado e pensativo. Existirão neste cosmos chaves para abrir o meu escafandro? Uma linha de metro sem estações? Uma moeda suficientemente forte para resgatar a minha liberdade? É preciso procurar noutro lugar. É o que vou fazer.

A cona enquanto metonímia



Alberto Hernando
Cunnus. Repressão e Insubmissões do Sexo Feminino
2ª ed., 1999
Lisboa, Edições Antígona
(tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra)

Capa: Antígona, sobre píntura de Christian Schad, As Amigas, 1930


A cona, a partir do paradigma masculino, é um espaço paradoxal; alheado como parte física do corpo feminino, desencadeia inúmeras fantasmagorias sexuais, exaltações desejos; presta-se-lhe homenagem ao convertê-la num objecto artístico ou mitificando-a; apalpa-se, lambe-se e cheira-se como requinte lúbrico; é temida e venerada... E também é denegrida, provocando proibições, nojos, vergonhas; é ocultada, atribuindo-se-lhe a origem de infinitas desgraças; é desacreditada, escarnecida e difamada; é vista como coisa depravada, impura e maléfica. As duas antinomias não constituem critérios separados. Podem coincidir – ou confundir-se – ao mesmo tempo. A sua lógica é arbitrária e reversível. (...)
Essas duas lógicas - atracção versus repulsa – fundam cultura e sociedade. Cultura enquanto os mitos, a literatura e a arte se ocupam da cona. Sociedade, ao suscitar leis, costumes, superstições, investigações médicas ou especulações psicológicas.

(...)

O deus ex maquina que provoca a violência e a perseguição contra a cona é o medo masculino que nasce do conhecimento da precariedade do seu próprio sexo face ao feminino. Medo atenuado traduzido em misoginias, medo exacerbado traduzido em machismos recalcitrantes. Medos inseparáveis do fascínio que ao mesmo tempo a cona suscita.
Esta ambivalência - repulsão/atracção - em relação ao sexo da mulher virtualiza-se na escrita através de subtis, grosseiros e incisivos poemas; bem como nos relatos onde se descrevem as diferentes espécies de erotismo. Dado que entre escrita e sociedade existe um vínculo causal e interactivo, não se deve esquecer que a ordem social impõe os seus códigos ao dizer: prescrevendo e proscrevendo; moralizando (em masculino) os valores e o sentido da linguagem. Os imaginários sociais sobre a mulher ganham assim corpo numa escrita condicionada. Certamente que a maior parte das conas - falando a partir da metonímia masculina que a assimila à mulher toda - vivem na anuência do seu domínio: submissas conas de débito maternal e conjugal; aborrecidas e murchas conas virginais; sacrificadas conas constrangidas a uma moral beata e conas mercenárias (prostituídas) de simples valor de uso. Mas um sector, cada vez mais amplo, de conas opta por diversas formas de insubmissão: conas conversas (femininos moderados que querem ser iguais - em direito e atitude - aos homens), conas perversas (feminismo fálico que quer impor-se aos homens) conas subversivas (feminismo utópico ou ácrata que quer anular a barreira dos géneros) e conas reversivas (malditismo feminino que faz girar essa barreira até que explode).
Os três primeiros casos são insubmissões que jogam com o desejo - para se valorizarem, impor ou particularizar - no interior de regras de jogo masculinas (ordem produtiva). O último caso (conas fatais) não se apoia em nenhuma declaração de princípios, impõe (seduz) a sua sexualidade como um desafio: demonstra o macho que és; vence-me sexualmente! Perante essa aposta o homem - de orgasmo limitado - nada pode fazer. Só as conas sedutoras escapam plenamente às ciladas de ordem sexista masculina. Mas que ninguém se iluda ou se engane: toda a insubmissão se caracteriza pela sua pontualidade, pela sua interinidade, pela impossibilidade de alcançar um estatuto permanente, porque a ordem masculina pode recuperar - enquanto não mudarem substancialmente as coisas - o seu domínio por outras vertentes não sexuais. No entanto, e apesar de tudo, o importante é a liberdade saborosa alcançada durante a insubmissão e não o posterior caminho do fim da fuga.


(negritos da minha responsabilidade)


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Trainspotting

Trainspotting
Irvine Welsh
Relógio D’Água
[Tradução: Paulo Faria]


O Marado estava encharcado em suor e tremia imenso. Eu tava sentadinho no meu canto a olhar para a televisão e a fazer um esforço enorme para não reparar no gajo. A má onda dele já me começava a contagiar. Tentei concentrar-me no vídeo do Jean-Claude Van Damme.
Como sempre neste género de fitas, logo a abrir havia uma cena dramática à brava. A seguir havia umas peripécias rocambolescas só para aumentar a tensão, apresentar o chefe dos maus e esboçar um enredo colado com cuspo. A qualquer momento, o amigo Jean-Claude ia começar a distribuir porrada de criar bicho.
-Tenho de ir ter com a Madre Superior, Rents – arfou o Marado, a abanar a cabeça.
- Bolas! – disse eu. Queria era que aquele chalado me desaparecesse da vista, que se desenrascasse sozinho e me deixasse em paz a ver o Jean-Claude. Mas a verdade é que não tardava muito e eu próprio também me ia começar a sentir na merda, e se aquele gajo fosse comprar o produto sem mim, de certeza que me deixava pendurado. Chama-lhe Marado mas não é por ele estar sempre marado dos com o síndrome de abstinência, é por ele ser mesmo marado dos cornos. [...]


Ironicamente, era Begbie a chave do seu destino. Roubar os amigos era o delito mais grave do seu código de honra, e ele exigiria a aplicação da pena máxima. Renton usara Begbie, usara-o para queimar os seus barcos definitivamente, sem apelo nem agravo. Begbie era a garantia de que nunca mais poderia regressar. Tinha feito o que queria fazer. Agora já mais poderia voltar a Leith, a Edimburgo; nem sequer à Escócia. Aí, não podia ser outra coisa senão aquilo que sempre fora. Agora, livre de todos eles, duma vez por todas, ia poder ser aquilo que quisesse. Resistiria ou cairia sozinho. Esta ideia aterrorizava-o e excitava-o simultaneamente, enquanto imaginava a sua vida futura em Amesterdão.

Pode o Diabo ser feliz?



(Para o jmnk)


Há, no mundo das grandes religiões, um Ser à parte, que não é bicho nem homem, nem muito menos Deus. E, contudo, este Ser serve-se dos bichos, escraviza os homens e ousa medir-se com o próprio Deus. É, segundo o dogma cristão, um anjo que comanda uma legião de anjos, mas um anjo caído, desfigurado, maldito.

(...)

Pensam eles que um Deus verdadeiramente Pai não pode torturar eternamente os seus filhos; consideram que um Deus todo Amor, como por Cristo foi revelado, não pode negar eternamente o seu perdão, nem sequer aos mais obstinados rebeldes. A misericórdia no fim dos tempos, isto é, do mundo actual, deverá superar mesmo a justiça. Se assim não fosse, deveríamos pensar que o próprio Pai de Cristo não é um perfeito cristão.

(...)

O Eterno Amor – quando tudo for cumprido e expiado – não poderá renegar-se a si mesmo, nem sequer ante a negra face do primeiro Insurrecto e do mais antigo Danado.

Novembro, 1953.

(Giovanni Papini, O Diabo: Apontamentos para um futura Diabologia.
Traduçao: Fernando Amaro.
Edição: Livros do Brasil.)

confissões sem fim

Thomas Mann
As confissões de Félix Krull
Cavalheiro de Indústria
Relógio D'Água Ed., Junho 2003


Nas horas vagas da minha aposentação, no momento em que pego na pena para registar as minhas recordações (são de corpo, mas cansado, tão cansado que a narrativa avançará por pequenas etapas, mas com frequentes interrupções), no momento - dizia - em que, com a minha letra nítida e agradável, me preparo para fazer as minhas confissões ao paciente papel, sou assaltado por um escrúpulo fugitivo. Com a minha cultura e a minha instrução, estarei eu à altura deste empreendimento intelectual? Como o que tenho a dizer se refere às minhas experiências, erros e paixões estritamente pessoais e directos, a minha dúvida incide apenas sobre o ritmo e a qualidade do meu modo de expressão. Ora eu penso que, em assuntos desses, os estudos aturados e levados até ao fim têm menos importância do que uma vocação natural e uma educação cuidada desde o berço.

(...)

- Maria - gritei.
- Ah! - gritou ela, também com uma alegria violenta. Um turbilhão de forças primitivas levou-me ao reino das delícias. E mais tempestuosamente que durante o sangrento espectáculo ibérico vi, sob as minhas ardentes carícias, palpitar muito alto seio real.

O Sabor das Trevas (Romance-alegoria dos Tempos Amargos)


O despertador retiniu com fúria luminosa na mesinha de cabeceira e o senhor Retrós enfiou os pés nas chinelas atarantadas. A seguir, no laboratório da casa de banho, rasgou o peito com um bisturi de metal fantástico e substituiu o coração pelo despertador. Isto depois de regulá-lo convinientemente para que, de meia em meia hora com toques estrídulos, lhe recordasse que existia.
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... Onde Nóseu e Nóstodos esperamos pelo pólen cósmico do teu Amor - a única luz sempre jovem nos olhos dos homens. O único suor que escorrega dos nossos corpos e torna humano o universo, com estrelas de carne e osso e bocas de lábios carnudos que nenhum frio apaga.
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FERREIRA, José Gomes, O Sabor das Trevas, Romance-alegoria dos Tempos Amargos, Moraes Editores, Lisboa, 1978 (2ª edição).

A família morreu - paz à sua alma!

Anthony Giddens
Transformações da Intimidade. Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas
2ª ed., 2001, Oeiras, Celta Editora
(tradução de Rosa Maria Perez)



Sexualidade: um tema que pode parecer de irrelevância pública - uma preocupação absorvente, essencialmente privada, mas também um factor constante, sem dúvida, porque determinado pela biologia, e determinante para a continuação das espécies. E, todavia, o sexo surge agora permanentemente no domínio público e, além disso, fala a linguagem da revolução. Ao longo das últimas décadas deu-se uma revolução sexual e expectativas revolucionárias foram adstritas à sexualidade por muitos pensadores, para os quais ela representa um potencial estado de liberdade não contaminado pela civilização moderna.
Como interpretar tais reivindicações? Foi esta questão que me impeliu a publicar este livro. Preparo-me para escrever sobre sexo. Dou por mim a escrever também sobre amor e sobre género. A verdade é que os trabalhos sobre sexo tendem a ser sobre género. Em alguns dos mais notáveis estudos sobre sexualidade escritos por homens não há referências ao amor e o género surge como uma adenda. (...) Concentrar-me-ei antes no plano emocional em que as mulheres - tanto mulheres comuns, na sua vida quotidiana, quanto grupos feminista autoconscientes - foram pioneiras de mudanças de grande e generalizável importância.

(...)

Para nós, a sexualidade ainda transporta um eco do transcendente. Todavia, ela está neste caso envolta numa aura de nostalgia e de desapontamento. Numa civilização dependente da sexualidade, a morte ficou destituída de significado; a política da vida implica, hoje, a renovação da espiritualidade. Deste ponto de vista, a sexualidade não é a antítese de uma civilização dedicada ao crescimento económico e ao controlo técnico, mas a incorporação do seu fracasso.

nenhum olhar

"Nenhum Olhar"
José Luís Peixoto
Editora Temas & Debates

“Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não o ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como o céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu. Um açude sem peixes, sem fundo, este céu. Nuvens, veios ténues. E o ar a arder por dentro, chamas quentes e abafadas na pele, invisíveis. Suspenso, como um homem cansado, ar. Há-de ser um instante em que não se veja um pardal, em que não se ouça senão o silêncio que fazem todas as coisas a observar-nos. Chegará. Hei-de distingui-lo no horizonte. Tão bem quanto sei isto agora, sabia-o ontem quando entrei na venda do judas e pedi o primeiro copo e pedi o segundo e pedi o terceiro. Mais, sabia que por toda a planície se calarão as cigarras e os grilos. De encontro ao céu, as oliveiras e os sobreiros hão-de parar os ramos mais finos; num momento, hão-de tornar-se pedra.

[...]

O homem que está fechado dentro de um quarto sem janelas a escrever parou de repente a meio de uma frase e o fim, para ele, foi a tinta que desapareceu das páginas que tinha vivido, foram as folhas de papel que fugiram de si próprias e se tornaram o mais absoluto vazio de tudo, foi a memória que se transformou nem sequer em ar, nem sequer em vento. O mundo acabou. E não ficou nada. Nem as certezas. Nem as sombras. nem as cinzas. Nem os gestos. Nem as palavras. Nem o amor. Nem o lume. Nem o céu. Nem os caminhos. Nem o passado. Nem as ideias. Nem o fumo. O mundo acabou. E não ficou nada. Nenhum pensamento. Nenhuma esperança. Nenhum consolo. Nenhum olhar."

El pintor de batallas



















Arturo Pérez-Re
verte
El pintor de batallas
Alfaguara, 1ª Ed., Março de 2006


"Numa torre junto do Mediterrânico, em busca da fotografia que nunca conseguiu fazer, um antigo fotógrafo de guerra pinta um grande fresco circular na parede da torre: a paisagem intemporal de uma batalha. Acompanham-no na tarefa um rosto que regressa do passado para cobrar uma dívida mortal, e a sombra de uma mulher desaparecida dez anos antes. À volta destas três personagens, Arturo Pérez-Reverte escreve a mais intensa e perturbadora história da sua longa carreira de escritor. El pintor de batallas (para já sem tradução em português) subjuga o leitor e arrasta-o através de uma complexa geometria do caos do século XXI: a arte, a ciência, a guerra, o amor, a lucidez e a solidão, combinam-se no vasto mural de um mundo que agoniza."

As experiências que Pérez-Reverte acumulou durante vinte e um anos como repórter de guerra são retiradas da mochila neste livro, uma recordação de tudo o que viveu, transmitindo-nos como muito poucos até agora o sofrimento, o rancor e o desespero que pode alcançar a alma humana. Não há tréguas neste livro, a trama urde-se devagar e minuciosamente como peças de um puzzle que, não parecendo, encaixam perfeitamente. Depois de ler este livro, uma certeza fica: há lugares de onde nunca se volta.

Emily


Acabo de regressar da visita que fiz ao meu senhorio – o único vizinho que poderá perturbar o meu isolamento. Esta região é sem dúvida magnífica! Sei que não poderia ter encontrado em toda a Inglaterra outro lugar como este, tão retirado, tão distante da mundana agitação. Um paraíso perfeito para misantropos: Mr. Heathcliff e eu próprio formamos a parceria ideal para partilhar esse isolamento. Um tipo formidável, este Heathcliff! Mal ele sabia como eu transbordava de cordialidade quando os seus olhos desconfiados se esconderam sob os cílios, ao ver-me cavalgar na sua direcção, e quando os seus dedos resolutos e ciosos se acoitaram mais fundo nos bolsos do colete quando lhe disse o meu nome.

- Estou a falar com Mr. Heathcliff? – perguntei.

Aquiesceu com a cabeça.

- Sou Mr. Lockwood, o seu novo inquilino. Quis ter a honra de vir visitá-lo logo após a minha chegada, para lhe apresentar as minhas desculpas e lhe dizer que espero não o ter importunado demais com a minha insistência em alugar a Granja dos Tordos: constou-me ontem que o senhor tinha dito que…

- A Granja dos Tordos é propriedade minha, meu caro senhor – atalhou ele, arredio – e, se puder evitá-lo, não permito que ninguém me importune. Entre!

Este “entre” foi proferido entre dentes e o sentido que exprimia era mais um “Vá para o Diabo”; até a cancela a que se arrimava se quedou imóvel, insensível ao convite. Convite que, acho eu, acabei por aceitar movido pelas circunstâncias: acicatava-me a curiosidade, este homem que parecia, se possível, ainda mais reservado do que eu.

(…)

O meu regresso a casa foi demorado, devido ao desvio que fiz pela igreja. Ao olhar para as paredes, verifiquei que sete meses haviam bastado para a degradação avançar: muitas eram as janelas que ostentavam negros buracos onde faltavam vidraças; aqui e além havia telhas fora do alinhamento que não tardariam a ser arrancadas pelas intempéries do Outono.

Procurei, e não tardei a encontrar, as três lápides na encosta que desce para o brejo: a do meio, cinzenta e meio coberta pela urze; a de Edgar Linton, por enquanto só debruada de ervas e musgo; a de Heathcliff, ainda nua.

Por ali me demorei, sob um céu propício, observando as borboletas que esvoaçavam entre as urzes e as campainhas-do-monte, ouvindo a brisa suave que de mansinho agitava a relva, perguntando a mim mesmo como seria possível alguém imaginar que macabras deambulações perturbassem o sono dos que ali repousavam na terra tranquila.

Emily Brontë, O Alto dos Vendavais
Tradução de Ana Maria Chaves

o trono de alice

Matt Ridley
A Rainha de Copas
O sexo e evolução da natureza humana
Gradiva, 1ª Ed., Junho de 2004


Quando um cirurgião faz uma incisão num corpo, sabe o que vai encontrar no seu interior. Se, por exemplo, procura o estômago do doente, não espera encontrá-lo num local diferente em cada doente. Todas as pessoas têm estômagos, todos os estômagos humanos têm aproximadamente a mesma forma e todos se localizam no mesmo sítio.

(...)

Mas depois lembro-me de quanto progredimos desde Hume e de quão mais perto estamos do objectivo de uma compreensão completa da natureza humana do que alguma vez já estivemos. Nunca atingiremos esse objectivo completamente, e talvez seja preferível que nunca o atinjamos. Mas enquanto pudermos continuar a perguntar «porquê?» temos um objectivo nobre.

Kashmira

Salman Rushdie
Shalimar O Palhaço
Dom Quixote
[Tradução: Maria João Delgado]


Aos vinte e quatro anos, a filha do embaixador dormia mal com aquelas noites quentes, sempre iguais. Acordava com frequência e, mesmo quando o sono chegava, o corpo nunca tinha descanso, agitando-se e esbracejando como que a tentar libertar-se de umas terríveis grilhetas invisíveis. Por vezes, gritava de uma maneira assustadora, numa língua que não conhecia. Houve homens que lhe contaram isso, constrangidos. Poucos homens tinham tido o privilégio de estar presentes enquanto ela dormia. Portanto, as provas eram limitadas, não se chegando a um consenso; contudo, foi emergindo um padrão. Segundo um relato, fazia-o num tom gutural, entrecortado, como se estivesse a falar árabe. Árabe das Mil e uma Noites, pensou ela, a língua maravilhosa de Xerazade. Uma outra versão, descrevia as palavras dela como se de ficção se tratasse, uma espécie de klingon, como se alguém estivesse a aclarar a voz numa galáxia distante. Como um demónio a falar pela boca da Sigourney Weaver em Goshtbusters. Uma noite, por curiosidade, a filha do embaixador deixou um gravador ligado na mesinha de cabeceira, mas quando ouviu a voz gravada, aquela feiura mortal, ao mesmo tempo familiar e estranha, assustou-se de tal maneira que premiu o botão de apagar (aliás, não apagou nada de importante). A verdade continuava a ser a verdade. [...]


Ela estava à espera dele. Não era de fogo mas de gelo. Esticou ao máximo o arco dourado. Sentiu a corda contra os lábios entreabertos, sentiu a extremidade da haste da flecha contra os seus dentes cerrados, esperou uns segundos, inspirou e soltou a flecha. Não tinha hipótese de falhar. Não teria uma segunda oportunidade. Não existia nenhuma India. Apenas Kashmira e Shalimar o Palhaço.

Uma identidade intemporal

Jane Goodall (com Phillip Berman)
Motivo de Esperança. Um Percurso Espiritual (2001)
Círculo de Leitores
(tradução de Inês Curado Ribeiro)





Esta é uma história sobre uma viagem
, a viagem de um ser humano através de sessenta e cinco anos de existência terrena: a minha viagem. Tradicionalmente, uma história começa pelo início. Mas o que é o início? É o momento que nasci, dotado de toda a encantadora fealdade de um bebé recém-nascido, num hospital de Londres? Terá sido o primeiro oxigénio que respirei que me fez gritar de dor, indignada por ter sido forçada a abandonar o útero materno? Ou será que devemos referir um tempo anterior, no mais secreto espaço, onde, no escuro, um ondulante espermatozóide - um entre milhões - conseguiu penetrar num pequeno óvulo - esse corpo fértil que biológica e magicamente se transforma depois num bebé? Mas, esse não é, de facto, o início.

(...)

Lembrei-me de estar deitada no meu quarto, com muito verde em redor - Vanne confirmou, as cortinas eram verdes e as carpetes também. E recordei-me de observar uma grande libélula azul que entrara pela janela. Protestei quando a ama a tentou afastar, mas ela retorquiu que me podia picar e que tinha um ferrão tão grande quanto o «rabo» (referindo-se, é claro, ao abdómen). Mas que grande ferrão! Não admira que me tenha assustado tanto quando outra libélula zumbiu à volta do meu carrinho. Mas o facto de recear o insecto não significa desejar a sua morte. Se fechar os olhos, posso ainda ver, com uma clareza quase insuportável, as magníficas asas ainda trémulas, o «rabo» azul brilhando à luz do Sol, a cabeça esmagada contra o passeio. Aquele ser tinha morrido por minha causa, provavelmente em sofrimento. Gritei devido a uma revolta inútil e a um terrível sentimento de culpa.
Talvez tenha vivido toda a minha vida a tentar atenuar essa culpa. Talvez a libélula fizesse parte de algum propósito, destinado a trazer uma mensagem a uma criança pequena, há tantos anos atrás. Se assim for, tudo o que posso responder a Deus é «Mensagem recebida e compreendida». Tentei aliviar a culpa que todos nós devíamos sentir pela desumanidade com que tratamos homem e animal. E assim, munida do apoio de todos aqueles que demonstram possuir um coração compassivo e afectuoso, continuarei a tentar até ao fim. E o fim ... será apenas o começo?

(Negritos da minha inteira responsabilidade!)

As Crisálidas



Quando era muito pequeno sonhava às vezes com uma cidade - o que era estranho porque tais sonhos começaram antes mesmo de eu saber o que era uma cidade. Mas essa cidade, aninhada na curva de uma grande baía azul, vinha-me ao pensamento. Via as ruas e os edifícios que as ladeavam, a zona ribeirinha e até os barcos no porto - embora, acordado, nunca tivesse visto o mar, nem um barco...
.
(...)
.
Era exactamente como eu vira nos meus sonhos. Um sol mais brilhante do que Waknuk jamais conhecera jorrava sobre a larga baía azul onde as séries de ondas coroadas de branco avançavam lentamente para a praia. Barcos pequenos, alguns com velas coloridas e outros sem velas nenhumas, dirigiam-se para o porto, onde já se encontravam outras embarcações. Aglomerada ao longo da costa, e tornando-se menos densa à medida que se estendia na direcção dos montes, ficava a cidade com as suas casas brancas incrustadas entre parques verdes e jardins. Consegui até distinguir os pequenos veículos que circulavam pelas largas avenidas ladeadas de árvores. Um pouco para o interior, ao lado de um quadrado verde, uma luz forte piscava numa torre e uma máquina do feitio de um peixe descia, a flutuar.
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Era tão familiar que quase me iludi. Momentaneamente, imaginei que acordaria e me encontraria na minha cama, em Waknuk. Peguei na mão de Rosalind, para me convencer da realidade.
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- É real, não é? Tu também vês? - perguntei-lhe.
- É lindo, David. Nunca pensei que pudesse haver uma coisa tão encantadora. E há mais qualquer coisa, de que nunca me falaste.
- O quê?
- Escuta, não sentes? Abre mais a tua mente... Petra, querida, se pudessses parar um momento de transmitir os teus pensamentos radiantes...
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Fiz o que ela me mandou. Apercebi-me de que o piloto da nossa máquina comunicava com alguém, em baixo, mas atrás disso, como um fundo, havia algo de novo e desconhecido para mim. Em termos de som, não seria diferente do zumbido de um cortiço de abelhas; em termos de luz, uma claridade velada.
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- Que é? - perguntei, intrigado.
- Não adivinhas, David? É gente, montes e montes de gente do nosso género!
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Calculei que ela devia ter razão e prestei atenção durante um bocado - até a excitação de Petra levar a melhor sobre ela e eu ser obrigado a proteger-me.
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Agora sobrevoávamos terra e olhámos para baixo, para a cidade que vinha ao nosso encontro.
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- Começo finalmente a acreditar que é real e verdadeiro - disse a Rosalind. - Tu nunca estiveste comigo, das outras vezes.
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Ela virou a cabeça. A Rosalind interior estava no seu rosto, a sorrir de olhos brilhantes. A armadura caíra. Deixou-me olhar debaixo dela. Era como uma flor a abrir.
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- Desta vez, David... - começou.
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Depois o seu pensamento foi apagado. Cambaleámos e levámos as mãos à cabeça. Até o chão debaixo dos nossos pés tremeu um pouco.
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Vieram protestos angustiados de todas as direcções.
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- Oh, perdão! - desculpou-se Petra, dirigindo-se à tripulação da nave e à cidade em geral. - Mas é terrivelmente excitante!
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- Desta vez, querida, perdoamos-te - respondeu-lhe Rosalind. - É, de facto.
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WYNDHAM, John, As Crisálidas, Editorial Caminho, Lisboa, 1984.

Siddhartha


Na penumbra da casa, ao sol nas margens do rio, junto aos barcos, à sombra do bosque, à sombra das figueiras, cresceu Siddhartha, o belo filho do brâmane, o jovem falcão, na companhia de Govinda, o seu amigo, o filho do brâmane.

(...)

Govinda fez uma profunda vénia, as lágrimas corriam-lhe pelo rosto velho sem que ele as sentisse, o sentimento de um amor efusivo, de adoração humilde, queimava como fogo no seu coração. Fez uma profunda vénia, até ao chão, perante aquele que permanecia sentado, impassível, e cujo sorriso lhe recordava tudo o que jamais amara na sua vida, tudo o que na sua vida lhe fora querido e sagrado.

(Hermann Hesse, Siddhartha)

três homens num barco (já para não falar do cão)

Três inválidos - Sofrimentos do George e do Harris - Uma vítima de cento e sete doenças fatais - Receitas úteis - Cura para os padecimentos do fígado nas crianças - concordamos que estamos extenuados e que precisamos de descanso - Uma semana no mar revolto - O George sugere o rio - O Montmorency objecta - Moção original vence por uma maioria de três contra um.

(...)

E o Montmorency, sentado nas patas traseiras, em frente à janela, olhando para a noite, deu um latido breve, apoiando decididamente aquele brinde.

JEROME, Jerome K., Três homens num barco (já para falar do cão), Edições Cotovia, Lisboa, 2004.

Anjos do céu

Paul Auster
Timbuktu (2002)
Colecção FNAC de Bolso, Edições ASA/FNAC

(tradução de José Vieira de Lima)




Mr. Bones sabia que Willy já não ia andar muito tempo neste mundo. A tosse não o largava havia mais de seis meses e agora é que ele já não tinha nem a mais remota hipótese de se ver livre dela. Lenta e inexoravelmente, sem nunca dar mostras de abrandar, a coisa ganhara vida vida própria, avançando de uma vaga farfalheira cheia de muco, no dia 3 de Fevereiro, para as convulsões escarrentas e os arquejantes terramotos de monco e pus no pino do Verão. Tudo isso já era suficientemente mau, mas, nas duas últimas semanas, infiltrara-se na música brônquica uma nova tonalidade - uma coisa tensa, silenciosa, percussiva - e os ataques, agora, sobrevinham tantas vezes que eram quase constantes. Sempre que um desses ataques começava, Mr. Bones ficava meio à espera que o corpo de Willy explodisse à mercê daqueles paus de dinamite que rebentavam na sua caixa torácica. Imaginava que o sangue seria o próximo passo, e quando esse momento fatal finalmente chegou naquela tarde de sábado, foi como se todos os anjos do céu tivessem aberto a boca e desatado a cantar.

(...)


E foi assim que naquela resplandecente manhã de Inverno na Virginia, Mr. Bonés, também conhecido por Sparkatus, o companheiro inseparável do malogrado poeta Willy G. Christmas, tratou de provar que era um campeão entre os cães. Um passo em frente e disse adeus às ervas, postando-se na berma leste da auto-estrada. Esperou por uma pausa no trânsito e, então, desatou a correr. Embora muito fraco, tinha ainda um resto de vigor nas pernas, e a partir do instante em que apanhou o ritmo, sentiu-se tão forte e tão feliz como não se sentia há muitos meses. Correu para o ruído, para a luz, para o clarão e o fragor que se abatia sobre ele vindo de todas as direcções.
Com alguma sorte, estaria com Willy antes que escurecesse

Coração, solitário caçador; Carson McCullers





“Havia na cidade dois mudos que eram inseparáveis. Todas as manhãs, cedinho, saíam juntos de casa e desciam a rua de braço dado, a caminho do emprego. Eram muito diferentes um do outro, os dois amigos. Um deles, grego obeso e sonhador, era o guia do par.
(…)

Humedeceu o lenço na torneira e tamponou com ele o rosto tenso e estirado. Ocorreu-lhe que ainda não tinha enrolado o toldo. Encaminhou-se para a porta, e o seu andar ganhou firmeza. E quando, enfim, voltou para dentro, tinha recobrado toda a compostura e sobriedade, e esperou pelo romper do sol.”


no original:the heart is a lonely hunter
edição que li: livros de bolso europa-américa, tradução e prefácio de josé rodrigues miguéis.

Amusing Ourselves to Death


We were keeping our eye on 1984. When the year came and the prophecy didn’t, thoughtful Americans sang softy in praise of themselves. The roots of liberal democracy had held. Wherever else the terror had happened, we, at least, had not been visited by Orwellian nightmares.

But we had forgotten that alongside Orwell’s dark vision, there was another – slightly older, slightly less well known, equally chilling: Aldous Huxley’s Brave New World. Contrary to common believe even among the educated, Huxley and Orwell did not prophesy the same thing. Orwell warns that we will be overcome by an externally imposed oppression. But in Huxley’s vision, no Big Brother is required to deprive people of their autonomy, maturity and history. As he saw it, people would come to love their oppression, to adore the technologies that undo their capacities to think.

What Orwell feared were those who would ban books. What Huxley feared was that there would be no reason to ban a book, for there would be no one who wanted to read one. Orwell feared those who would deprive us of information. Huxley feared those who would give us so much that we would be reduced to passivity and egoism. Orwell feared that the truth would be concealed from us. Huxley feared the truth would be drowned in a sea of irrelevance. Orwell feared we would become a captive culture. Huxley feared we would become a trivial culture. (…) In 1984 (…) people are controlled by inflicting pain. In Brave New World, they are controlled by inflicting pleasure. In short, Orwell feared that what we hate will ruin us. Huxley feared that what we love will ruin us.

This book is about the possibility that Huxley, not Orwell, was right.

(…)

What I suggested here as a solution is what Aldous Huxley suggested, as well. And I can do no better than he. He believed with H. G. Wells that we are in a race between education and disaster, and he wrote continuously about the necessity of our understanding the politics and epistemology of media. For in the end, he was trying to tell us that what afflicted the people in Brave New World was not that they were laughing instead of thinking, but that they did not know what they were laughing about and why they had stopped thinking.

(Neil Postman, Amusing Ourselves to Death)

O Marinheiro de Gibraltar, Marguerite Duras



Já visitámos Milão e Génova. Encontrávamo-nos em Pisa há dois dias quando decidi partir para Florença. Jaqueline concordou. Concordava sempre, de resto.
(... )
Rumo às Caraíbas, o mar estava calmo. Mas, disso, ainda não consigo falar.

O Fim da Aventura, de Graham Greene






O fim da aventura, Graham Greene*
Edições asa,

imagem scanneada a preto e branco, mil desculpas
prefácio do Jorge de Sena, grandebemhaja

"Uma história não tem princípio ou fim: escolhemos arbitrariamente um momento da experiência, de onde olhar para trás, ou olhar para diante.
(...)
O sentido da infelicidade é muito mais fácil de comunicar que o da felicidade. Parece que, na miséria, tomamos consciência da nossa própria existência, que mais não seja sob a forma de um monstruoso egotismo: esta minha dor é individual, este nervo que se crispa pertence-me e não a outro. Mas a felicidade aniquila-nos: perdemos a identidade.
(...)
se acaso houver um Deus que ame, o Diabo deve ser levado a destruir mesmo a mais frágil, a mais defeituosa imitação desse amor. Não teria ele medo de que o hábito de amar se enraizasse, e não tentaria apanhar-nos a todos no papel de traidores, para ajudá-lo a exterminar o amor? Se há um Deus que se serve de nós, e faz os seus santos com esta matéria que somos, também o Diabo terá as suas ambições; pode sonhar educar mesmo um tipo como eu (...) para seus santos, aptos a, com um misticismo de empréstimo, destruir o amor onde quer que o encontremos.
(...)
Ninguém sabe como começa coisa alguma. Sarah acreditara de facto que o fim começara no momento em que vira o meu corpo. Nunca teria admitido que o fim tivera início muito antes: as chamadas telefónicas por uma ou outra absurda razão, as questões que desencadeei, quando me apercebi do perigo de o amor terminar. Haviamo-nos deixado olhar para além do amor, mas só eu tivera consciência do caminho que estávamos trilhando. Se a bomba tivessse caído um ano antes, não teria ela feito aquela promessa. Teria ferido os dedos a tentar libertar-me. Quando chegamos ao termo dos seres humanos, precisamos de iludir-nos com a crença em Deus, como um gastrónomo, que exige, com a comida, mais complicados molhos.
(...)
Escrevi ao principio que era isto um memorial de ódio; e, caminhando ao lado de Henry, em direcção ao copo de cerveja da tade, descobri a única oração que parecia contentar a tristeza do inverno: ó meu deus, já fizeste bastante, já me roubaste bastante, sinto-me por demais cansado e velho para aprender a amar, deixa-me em paz para sempre.”


* com um grande bem seja a ana vicente pela sugestão

arquivado em: ,

da certeza?

Ludwig Wittgenstein
Da Certeza
Ed. Bilingue
Biblioteca de Filosofia Contemporânea
Edições 70, 2000


1. Se você, de facto, sabe que aqui está uma mão, admitiremos tudo o mais.
Quando alguém diz que uma certa proposição não pode ser provada, evidentemente que não quer dizer que não possa ser derivada de outras proposições; qualquer proposição pode ser derivada de outras. Mas estas podem não ser mais certas do que a já mencionada. (A este respeito existe um comentário interessante de H. Newman)

(...)

676. Mas, mesmo se nestes casos não posso estar enganado, não será possível que esteja drogado? Se estiver e se a droga me tornou inconsciente, então realmente não estou a falar e a pensar. Não posso supor seriamente que estou a sonhar neste momento. Alguém que disser a sonhar "estou a sonhar", mesmo se o disser audivelmente, ao fazê-lo, não tem mais razão do que se disser "está a chover", enquanto chove realmente. Mesmo se o seu sonho estiver, na verdade, ligado ao ruído da chuva.

outro inútil

Hugo Pratt
O desejo de ser inútil
Memórias e Reflexões
Entrevistas com Dominique Petitfaux
Relógio D'Água Editores, 2005


- Qual das suas vidas nos vai contar?
- Conheço treze maneiras de contar a minha vida. Hoje escolho a sétima, por amor ao número sete, que é também o do gato: o gato tem sete vidas, e para conhecer a sétima tem pois que morrer seis vezes.

(...)

Para epígrafe desse poema, Paul Valéry recorrera a estes versos do poeta grego Píndaro: "Oh minha alma, não aspires à vida imortal, mas esgota o campo do possível." Assim viveu Hugo Pratt.

para a frente

Javier Cercas
Soldados de Salamina
Trad. Helena Pitta
Edições Asa, 1ª Ed., 2002


Foi no Verão de 1994, faz agora mais de seis anos, que ouvi falar pela primeira vez do fuzilamento de Rafael Sánchez Mazas. Três coisas acabam de me acontecer por esse altura: a primeira foi o meu pai ter morrido; a segunda foi a minha mulher ter-me abandonado; a terceira foi eu ter abandonado a minha carreira de escritor. Minto. A verdade é que dessas três coisas, as duas primeiras são exactas, exactíssimas; mas não a terceira. Na realidade, a minha carreira como escritor não havia maneira de arrancar, de modo que dificilmente poderia abandoná-la.

(...)

Vi o meu livro inteiro e verdadeiro, o meu relato real e completo, e soube que me faltava escrevê-lo, passá-lo a limpo, porque estava na minha cabeça do princípio (“Foi no Verão de 1994, faz agora mais de seis anos, que ouvi falar pela primeira vez do fuzilamento de Rafael Sánchez Mazas”) ao fim, um fim em que um velho jornalista fracassado e feliz fuma e bebe whisky num vagão-restaurante de um comboio nocturno que viajava pela campina francesa entre gente que janta e é feliz e empregados de mesa de lacinho preto, enquanto pensa num homem acabado que teve a coragem e o instinto da virtude e por isso nunca se enganou ou não se enganou no único momento da vida em que importava deveras não se enganar, pensa num homem que foi honrado e valente e puro na pureza e no livro hipotético que o ressuscitará quando tiver morto, e então o jornalista olha para o seu reflexo tristonho e envelhecido na janela que lambe a noite até o reflexo se dissolver lentamente e na janela surgir um deserto interminável e ardente, e um soldado sozinho, levando a bandeira de um país que é todos os países e que só existe porque este soldado levanta a sua bandeira proscrita, jovem esfarrapado, coberto de pó e anónimo, infinitamente pequeno naquele mar escaldante de areia infinita, caminhada para a frente sob o sol negro da janela, sem saber muito bem para onde vai nem com quem vai nem porque vai, sem se importar muito desde que seja para a frente, para a frente, para a frente, para a frente.

os homens do renascimento

Vida de Miguel Angelo
por Agostinho da Silva
Ed. do Autor, Famalicão, 1942


Messer Ludovico Buonarroti, Podestá de Caprese e de Chiusi, era um dos mais distintos cidadãos da Florença do Renascimento e pertencia a uma família que se notabilizara no ambiente comercial da cidade e pretendia, por outro lado, ser de ascendência nobre; casou com Francesca del Sera e, a 6 de Março de 1475, nasceu-lhe um segundo filho a que deu o nome de Miguel Angelo.

(...)

Com os mortos, galopa Miguel Angelo, já em Roma, pelas ruas desertas, nas noites de luar e nas noites de tempestade, pelas estradas ladeadas de túmulos, ou com êles visita, no silêncio nocturno, as obras de S. Pedro que terá de deixar incompleta mas como tal marca do seu génio que os seus sucessores lhe terão de seguir o plano; a 14 de Fevereiro de 1564 saíu mais uma vez sob as bátegas violentas e só voltou de madrugada, a arder em febre: deitou-se umas horas, depois levantou-se, passou a uma cadeira, ficou diante da lareira, a olhar o fogo, a ouvir o crepitar da lenha, quando o tumulto do carnaval romano se aplacava mais um pouco; vieram os seus amigos e Tomaso Cavalièri tomou-lhe a mão, num adeus a quem o adorara e para sempre partia; ao terceiro dia, levaram-no de novo para a cama, já sem nenhuma resistência; e a 18, a vélha companheira, seu tormento e seu guia, a Morte que sempre implorara e que sempre combatera, veio de leve e de leve o desprendeu das cadeias do tempo.

por debaixo do céu

Thomas Mann
Doutor Fausto
Trad. Herberto Caro
Pub. D Quixote, 2ªEd., 1999

Faço questão de assegurar com toda a clareza que não tenho qualquer intenção de colocar a minha pessoa num lugar de destaque, ao escrever algumas palavras acerca de mim mesmo e das minhas próprias actividades, antes de iniciar o relato da vida do finado Adrian Leverkühn, a primeira e certamente muito provisória biografia do saudoso homem e músico genial, que o destino tão terrivelmente assolou, engrandecendo-o e derribando-o.


(...)

Nessa altura, a Alemanha, as faces ardentes da febre, no apogeu de selvagens triunfos, cambaleava, ébria, a ponto de conquistar o mundo, graças a um pacto ao qual tencionava manter-se fiel e que assinara com o seu sangue. Hoje, cai de desespero em desespero, cingida por demónios, cobrindo um dos olhos com a mão e cravando o outro num quadro horroroso. Quando alcançará o fundo do abismo? Quando raiará, no meio da derradeira desolação, um milagre superior a qualquer fé, a luz da esperança? Um homem solitário junta as mãos e diz: "Que Deus tenha misericórdia das vossas pobres almas, meu amigo, minha pátria!"

O Físico Prodigioso

"Balanceando o erecto corpo ao passo do cavalo, vinha descendo a encosta. O sol, muito alto ainda, iluminava de crepitações o vale que, selvárico, se abria ante o seu olhar que pervagava abstracto, sem distinguir o mato que floria, as pedras que rebrilhavam pardas e cinzentas, os pequenos animais que esvoaçavam, corriam, rastejavam, ou se ficavam suspensos, sem temor, fitando a mole imensa e caminhante de cavalo e cavaleiro. No fundo do vale, por entre os renques de choupos e salgueiros, entrecortada estava a chapa metálica e estreita de um rio. Foram para ele descendo, o cavaleiro, na mesma direcção absorta, sofreando o passo, que se apressava agora, do sedento cavalo, cujas narinas se dilatavam.

(...)

O velho chegou ao caminho e era mais fácil puxar o carro. Seguiu o arbusto que rolava seco no vento e que parou enganhcado noutro à beira do caminho. Deitada no carro, a jovem cantava em voz baixa, uma cantiga que cortava o coração do velho:

Ao rio perguntei por meu amigo
aquele que há tanto é partido
e por quem morro, ai!
Ao rio perguntei por meu amado,
e u será que ele se há banhado,
e por quem morro, ai!

O carro ia passando, e dele vinha um cheiro como o da roseira, só que mais acre.

Aquele que há tanto é partido
u lavou triste seu corpo velido,
e por quem...

... e o carro estacou sob um peso acrescentado e súbito. Ela sentou-se e não viu ninguém. O velho, ficando os pés, recomeçou a puxar. Ela sentiu uns braços que a abraçavam e nos lábios a pressão de outros lábio; e havia um corpo que ternamente se encostava ao seu.
Quando o carro acabou de passar, a roseira ressequida desprendeu-se, e foi rolando no vento."

Jorge de Sena, O Físico Prodigioso
Edições Asa

Stardust


Life begins with the process of star formation. We are made of stardust. Every atom of every element in your body except for hydrogen has been manufactured inside stars, scattered across the Universe in great stellar explosions, and recycled to become part of you.

(...)

I started this book with what may have seemed a metaphor, the idea of life on Earth as stardust, made from material forged inside the stars themselves. I end it with the discovery that this is not a metaphor at all - it is the literal truth. The raw material from which the first living molecules were assembled on Earth was brought down to the surface of the Earth in tiny grains of interplanetary material, preserved in the frozen hearts of comets from the interstellar debris of the giant molecular cloud from which the Solar System formed. Those grains themselves - literally, not metaphorically - formed from material ejected by stars. The 'manna from heaven' that carried the precursors of life down to the surface of the Earth was literally, not metaphorically, stardust. And so are we.

John Gribbin
Stardust: The cosmic recycling of stars, planets and people

The last three minutes


The date: 21 2126. Doomsday.

The place: earth. Across the planet a despairing population attempts to hide. For billions there is nowhere to go. Some people flee deep underground, desperately seeking out caves and disused mine shafts, or take to the sea in submarines. Others go on the rampage, murderous and uncaring. Most just sit, sullen and bemused, waiting for the end.

(...)

If there is a purpose to the universe, and it achieves that purpose, then the universe must end, for its continued existence would be gratuitous and pointless. Conversely, if the universe endures forever, it is hard to imagine that there is any ultimate purpose to the universe at all. So cosmic death may be the price that has to be paid for cosmic success. Perhaps the most that we can hope for is that the purpose of the universe becomes known to our descendants before the end of the last three minutes.

Paul Davies
The Last Three Minutes

O índio branco


Não sei muito bem como é possível, mas a verdade é esta: sou um índio. Não o sabia antes de ter encontrado os índios, no México e no Panamá. Sei-o agora. Não sou talvez um índio muito bom. Não sei cultivar o milho nem afeiçoar uma piroga. O peiote, o mescal ou a chicha mastigada sobre mim não exercem grande efeito. Mas quanto ao resto, quanto à maneira de andar, de falar, de amar ou de ter medo, posso dizer o seguinte: quando encontrei esses povos índios, eu, que não julgava por aí além ter família, senti-me como se de repente tivesse conhecido milhares de pais, de irmãos e de esposas. Como sempre, porém, quando uma pessoa pretende falar de um povo, quando se põe a adivinhar as paixões e os desígnios de uma comunidade que não é a sua, e mesmo que não creia forçosamente na ciência, corre sempre grandes riscos. Assim acontece com estas páginas, escritas para falar de gentes cuja grande virtude é a de serem inacessíveis e silenciosas, porque, desgraçadamente, estas páginas só sabem falar do seu autor.

Há, no entanto, outra coisa: na altura em que este livro termina apercebo-me de que seguiu, sem eu disso me dar conta, e como se fosse por acaso, o desenvolvimento do cerimonial mágico de cura: Taú Sa, Beka, Kakvahaí. Serão pois estas três etapas, que arrancam o homem índio à doença e à morte, precisamente as mesmas que balizam a vereda de toda a criação: Iniciação, Canto, Exorcismo? Há-de talvez saber-se um dia que não havia arte, mas tão-só medicina.

(…)

Palavras mágicas, desenhos mágicos, eles eram a energia da vida. Lutavam contra o império da submissão, afastavam as franjas de pêlos depredadores. As letras nasciam, logo se escapavam e juntavam de novo à floresta. Nas cidades, homens sem nome, sem rosto, que se pareciam com os demónios, tinham a si atraído as palavras, as músicas e os desenhos, a fim de subjugarem os outros homens. Do alto das suas torres de controlo em duro plástico transparente, olham o caudal dos homens e dos automóveis que escorre nas ranhuras. Sabem tudo. Possuem, para espiar, grandes quantidades de microfones dissimulados, câmaras de filmar, gravadores de som. Estão ali, estão presentes. Estão nas paredes da prisão, decidiram postar-se por detrás das portas, das fechaduras e das frestas que há por todo o lado no ar, na água e sobre a terra. Já não largam aqueles que capturam nas suas armadilhas de beleza. Quem irá tentar destruí-los? Quem pegará num carvão, num giz, numa faca, numa caruma, em qualquer coisa, a fim de traçar nos objectos os estranhos sinais cabalísticos, as estranhas palavras insignificantes e ternas que libertam? Quem irá pintar o corpo e o rosto, a fim de manter ainda as paredes da prisão, a fim de impedir o tecto de descer, para que tudo seja inocente, para que toda a gente de novo fale a toda a gente?

J.M.G Le Clézio, Índio Branco (título original: Haï)
Fenda Edições
Tradução: Júlio Henriques

turkana a meu lado

John Hillaby
Journey to the Jade Sea
4 Ed., Paladin, GB, 1977

I knew where I was going. The hill station of Wamaba, the place where this journey began, lies on the western edge of the deserts of North Kenya. To the north the mountains slant down to a strange lake. I had been to Wamba once before. The circumstances are unimportant except that towards the end of a long tour, conducted by friends in the Game Department and arranged, thoughtfully, for comfort. I became so fed up with looking at spectacular scenery through the dusty windscreen of a Land-Rover that I got out and climb a chunk of ancient rock called Lolokwi, largely to stretch my legs.

(...)

I saw Rudolf once more from a height of forty thousand feet. The time, near midnight, the Comet laden with dozing passengers traveling at hundreds of miles an hour. On the flight deck the navigator assured me we were almost directly above the Turkan shore, but in the light of a quarter-moon I could see almost nothing below. The pilot flicked over the switch of one of a bank of dials ant the precise outline of Rudolf appeared eerily green in the center of the radar screen "Looks a grim place", he said and switched it off.
I went back to my seat and we flew on towards Khartoum. The journey was over.

oiça, António Ferro!

Artur Inez
Oiça, António Ferro!
2ª Ed. Imprensa Beleza, 1933


Nós não pertencemos ao número, elevado por sinal, dos que o consideram simplesmente um imbecil que passa horas trágicas e aflitivas curvado sôbre a sua secretária do Notícias, de mãos fincadas nos parietais, suando, bufando em busca dum adjectivo salvador e bonito.
Não pertencemos a êsse número, porque o sabemos razoavelmente inteligente, embora de raciocínio lento e de precária realização verbalista, ainda que os seus panegiristas imaginem ou digam o contrário.
O senhor, Ferro, é um torturado da forma, que leva duas horas para escrever um período de quatro linhas que levou quatro horas a raciocinar...
E nem sequer é original!

(...)

O leitor que me perdoe. Fui mais longe do que queria. Com esta facilidade de escrever com que o destino me dotou, fui por aqui fora e não consegui responder ao Ferro.
Deixá-lo. Já agora não respondo.
É que entrou, neste instante, no meu gabinete, um camarada a dizer-me que o 1936, da 8.ª esquadra, sem que o chefe lhe encomendasse o sermão, estava ontem, na Baixa, de chanfalho na dextra a arrancar das paredes alguns exemplares do jornal onde lhe ferrei aquela trepa que o deixou a pão e laranjas.
Ora como posso eu responder ao amigo e correligionário do 1936 da 8.ª esquadra?
Nessa não caio eu...

superforça

Paul Davies
SuperForça
1ªEd. Gradiva, 1988


Todos gostamos de histórias de aventura. Uma das maiores aventuras de todos os tempos está a desenrolar-se neste preciso instante, no mundo sombrio da física fundamental. As personagens da nossa história são físicos em demanda de um prémio de valor incalculável - nada menos do que a chave para o universo.

(...)

Deveremos então concluir que o universo é um produto do desígnio? A física e a cosmologia modernas abrem-nos uma perspectiva tentadora: a de que poderemos vir a ser capazes de explicar, com base em processos naturais, a totalidade das estruturas físicas do universo. Não deveríamos então ter mais necessidade de um Criador no sentido tradicional do termo. Contudo, embora a ciência possa explicar o mundo, há que explicar a ciência. As leis que tornaram possível o nascimento espontâneo do universo parecem ser elas própria o produto de um desígnio, o universo tem de ter uma finalidade, e a física moderna sugere-me insistentemente que essa finalidade nos inclui a nós.

Hildegard von Bingen. A visionary life


Sabina Flanagan
New York:1989, 1990

When Henry, fourth of that name, ruled the Holy Roman Empire, there lived in hither Gaul a virgin famed equally for the nobility of her birth and her sanctity. Her name was Hildegard. Her parents, Hildebert and Mechthilde, although wealthy and engaged in worldly affairs, were not unmindful of the gifts of the Creator and dedicated their daughter to the service of God. For when she was yet a child she seemed far removed from wordly concerns, distanced by a precocious purity. (Vita, BkI)

I
This is how Godfrey a monk from Disibodenberg who acted as Hildegard's secretary and provost to the nuns at Ruperstberg, introduces his subject in the first book of his Vita Sanctae Hilldegardis (Life of St Hildegard). When he died in 1176 he left the work unfinished and it was not until a decade later, when Hildegard herself had been dead for some years, that Theodoric of Echternach, a famous monastery in the diocese of Trier, wrote the second and third books and added the prefaces.
Although one of her biographers had been in daily contact with Hildegard and in a position to ask about her early life, much information which might be considered important or even essential by a modern reader is missing from the Vita. (...) On the other hand, selections from Hildegard's correspondence are included in the Vita. Even more valuable is Theodoric's incorporation, in the second and third books, of lenghty autobiographical passages from an otherwise unknown works of Hildegard.
(...)
Although Hildegard's learning and approach may have represented something of a back water in her own day, the wave of scholasticism has long since peaked. Yet aspects of Hildegard's thought have contributed to a broader and more enduring stream of speculation about the interrelations of divinity, humanity, and the natural world.

In Cold Blood


"The village of Holcomb stands on the high wheat plains of western Kansas, a lonesome area that other Kansas call 'out there'. Some seventy miles east of the Colorado border, the countryside, with its hard blue skied and desert-clear air, has an atmosphere that is rather more Far West than Middle West. The local accent is barbed with a prairie twang, a ranch-hand nasalness, and the men, many of them, wear narrow frontier trousers, Stetsons and high heeled boots with pointed toes. The land is flat, and the views are awesomely extensive; horses, herds of cattle, a white cluster of grain elevators risisng as gracefully as Greek temples are visible long before a traveler reaches them."

(...)

"‘And nice to have seen you, Sue. Good luck,’ he called to her as she disappeared down the path, a pretty girl in a hurry, her smooth hair swinging, shining - just such a young woman as Nancy might have been. Then, starting home, he walked toward the trees, and under them, leaving behind him the big sky, the whisper of wind voices in the wind-bent wheat."

lonely in Tanzania


Mary Fitzpatrick
lonely planet - Tanzania
3rd Ed., 2005, Australia


Few areas of the continent captivate the imagination as does Tanzania. From Mt. Kilimanjaro's snow-capped summit to the Serengeti's wildlife-filled expanses, the country embodies what is for many quintessential Africa. It’s a melting pot of traditions, a crossroads of cultures and a supremely diverse and satisfying destination to explore. Moss-covered ruins of ancient Swahili city-states overlook fine white-sand beaches; cool, forested hillsides rise dramatically from the plains; and 100-plus ethnic groups amicably rub shoulders. Minarets are silhouetted against the skyline while nearby Christian churches resound with singing; wizened Makonde elders with facial etchings share seats with workers in Western dress: Dar es Salaam's gleaming modern face gazes across the waters at the cobbled streets of Zanzibar's old Stone Town.

(...)

Water:
Unless your intestines are well accustomed to Tanzania, don’t drink tap water that wasn’t been boiled, filtered or chemically disinfected (such as with iodine tablets). Also avoid drinking from streams, rivers and lakes unless you've purified the water first. The same goes for drinking from pumps and wells - some do bring pure water to the surface, but the presence of animals can still contaminate supplies.

Carne da minha carne

Marie Darrieussecq, O Bebé, 2003, Edições ASA, Porto
( tradução de Miguel Serras Pereira)

p. 11

Estes pezinhos que se agitam davam-me pontapés na barriga.
Não posso acreditar que tenha saído de dentro de mim.
Um dia um distribuidor bateu-me à porta, eu tinha uma grande barriga, dentro da encomenda havia o bebé, e eu deixei de ter a barriga grande.

A cria do ser humano: deve haver de facto qualquer coisa a procurar, a compreender a esse respeito.
É uma experiência repetitiva e descosida, e quando o bebé dorme a vida retoma o sei curso, mas quando está acordado é a vida dele que domina.

Estranhos dias do início, dos quais eu pouco ouvira falar; talvez porque durante eles se estabelece numa intimidade exclusiva, o vínculo, a asfixia, a vertigem - dias divididos aproximadamente em seis partes, nem dia nem noite, uma ou duas horas para a mamada, a mudança de fraldas, o adormecer de novo, uma ou duas horas de sono, e recomeça-se.













p. 141
Pelo meu lado, nove meses depois do seu nascimento, a origem do bebé perdeu-se. Encomenda postal, meteorito, célula obtida por clonagem, quimera que veio ao mundo, o anel de ADN que o sustenta é estranho à minha intuição. A sua parte de genes não tem qualquer relação com a sua existência.
Um momento de amor encarnado; o mar, o mumúrio da água, o sol de um fim de verão: outros tantos clichés que deitaram corpo. Ele deixa-os ficar onde estão, nas nossas memórias: recordações que não lhe dizem respeito.
Aquilo que a pouco e pouco dele sei alimenta-se apenas do tactear que nos aproxima. É feito de palavras e de tempo, de carne e de impulsos. Nenhum programa o codifica; nenhum desejo decidiu o que ele é.

Virginia Woolf, Orlando




"Ele - pois não restavam dúvidas a respeito do sexo a que pertencia, muito embora a moda da época não fosse muito clara a esse respeito - entretinha-se a desferir golpes contra a cabeça de um mouro, a qual se encontrava pendurada nas vigas. Aquela era da cor de uma velha bola de futebol, e teria o mesmo formato se as faces não gossem desarnadas e não se vissem uma ou duas madeixas de cabelo emaranhado e crespo, semelhante aos pêlos de um coco.

(...)

O único recurso que nos resta é olhar pela janela. Vemos pardais; vemos estorninhos; vemos algumas pombas e uma ou duas gralhas, todos ocupados com o que lhes diz respeito. Um procura uma minhoca, outro um caracol. Um voa para um ramo, outro dá uma corridinha pela turfa. É então a vez de um criado atravessar o pátio. Usa um avental de baeta verde e é provável que esteja envolvido em alguma intriga com uma das criadas, mas, dado não possuirmos provas nesse sentido, só podemos deixar as coisas tal qual elas estão. Espessas ou leves, as nuvens vão passando, alterando a cor da relva. O relógio de sol marca as horas através daquela forma misteriosa que o caracteriza. Mole, sem qualquer objectivo preciso, o espírito começa a formar uma ou duas perguntas a respeito desta vida. A vida canta, ou melhor, zumbe, como se fosse uma chaleira de água a ferver. Vida, vida, que és tu? Luz ou sombra, o avental da baeta do criado ou a sombra do estorninho projectada na relva?
Numa manhã estival, quando todos admiram a flor da ameixeira e a abelha, partamos então à sua descoberta. A assobiar ou a cantarolar baixinho, perguntemos ao estorninho (ave bastante mais sociável que a cotovia) que pensará ele quando vasculha no caixote do lixo, e, por entre os gavetos, encontra alguns fios de cabelo do ajudante do cozinheiro. Encostemo-nos ao portão da quinta e perguntemos o que é a vida. Vida, vida, vida!, canta a ave como se nos tivesse ouvido. É que ela sabe ao certo o que significa este hábito maçador de fazer perguntas a torto e a direito, quer dentro quer fora de casa, e de desfolhar malmequeres, o que acontece com frequência aos poetas quando não sabem o que dizer. «Então», pensa o pássaro, «perguntam-me o que é a vida; Vida, vida, vida!»
Depois, avancemos devagar pelo caminho que leva à charneca e alcancemos uma colina violeta. Atiremo-nos ao chão e sonhemos; vemos um gafanhoto transportar uma palhinha para casa. E ele diz-nos (se aos ruídos por si produzidos se pode dar nome tão sagrado e terno) que a vida é trabalho, ou pelo menos assim interpretamos os seus cri-cri sufocados pelo pó. As formigas e as abelhas concordam, mas, e se ficarmos aqui deitados o tempo suficiente para interrogarmos as borboletas nocturnas que esvoaçam por entre as pálidas campainhas, elas murmurar-vos-ão ao ouvido os mesmos disparates que ouvimos quando há tempestade e os fios dos telégrafos zumbem: «Riso! Riso!», exclamam as borboletas.Depois de termos interrogado um homem, uma ave e alguns insectos – já que, e ao que consta, os peixes vivem em grutas verdes e solitárias e não ouvem nem falam (e talvez sejam eles os únicos a saber o que é a vida) – depois de os termos interrogado a todos sem nada aprender, tendo apenas arrefecido e envelhecido (pois não tínhamos nós desejado encontrar maneira de aprisionar num livro algo tão raro e consistente a que poderíamos chamar «o sentido da vida»?), vemo-nos obrigados a voltar atrás e a dizer ao leitor que espera há tanto tempo que lhe respondamos – enfim, que não sabemos.

(...)

«É o ganso!», gritou Orlando. «O ganso selvagem...»
E então soou a décima segunda badalada da meia-noite; a décima segunda badalada da meia-noite de quinta-feira, 11 de Outubro de 1928."



Virginia Woolf, Orlando
(eu li nas edições europa américa (não era esta a capa, mas...), tradução de Lucília Rodrigues)

no meio da vida

Poucos heróis sabem afrouxar os seus ímpetos quando, na plenitude das suas vidas, o triunfo conduz inexoravelmente sempre para a frente, muitas vezes até à autodestruição: Alexandre chorou ao julgar que já não havia mais mundos para conquistar; Napoleão insistiu sempre e acabou por se perder nas profundezas do Inverno russo. Mas Charles Dawin, ao contrário da regra, parou aparentemente após a publicação de A Descendência das Homem. Em vez, portanto, de defender e aperfeiçoar a teoria, escreveu o seu mais obscuro trabalho, um livro intitulado On the Various Contrivances by wich British and Foreign Orchids are Fertilized by Insects, dado à luz em 1862.

(...)

A metáfora estereotipada para a história da Terra é um relógio de 24 horas em que a civilização humana ocupa os últimos poucos segundos, mas eu prefiro destacar o resultado acumulado de efeitos extremamente insignificantes na escala das nossas vidas. Acabámos de completar outro ano e a Terra abrandou mais outro 1/50 000 de segundo, Afinal o quê? Exactamente aquilo que acabam de ler.

Stephen Jay Gould
O Polegar do Panda
Ed. Gradiva

O Estrangeiro


Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: «Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentimos pêsames». Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.

(…)

Sentia-me agora outra vez calmo. Estava estafado e deixei-me cair sobre a cama. Julgo que dormi, pois acordei com estrelas sobre o rosto. Subiam até mim ruídos campesinos. Aromas de noite, de terra e de sol refrescavam-me as têmporas. A paz maravilhosa deste Verão adormecido entrava em mim como uma maré. Neste momento, e no limite da noite, soaram os apitos. Anunciavam possivelmente partidas para o mundo que me era sempre indiferente. Pela primeira vez, há muito tempo, pensei na minha mãe. Julguei ter compreendido porque é que, no fim de uma vida, arranjara um «noivo», porque é que fingia recomeçar. Também lá, em redor desse asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto da morte, a minha mãe deve ter-se sentido libertada e pronto a tudo reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela. Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do Mundo. Por o sentir tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.

Albert Camus
O Estrangeiro
Introdução de Jean-Paul Sartre

Graham Greene, O Cônsul Honorário

O doutor Eduardo Plarr estava de pé no pequeno porto sobre o Paraná, entre a balaustrada e os guindastes amarelos, a observar um penacho horizontal de fumo por Cima do Chaco. Entre as barras vermelhas do sol-poente, o fumo era como uma faixa numa bandeira nacional. O doutor Plarr achava-se só, a essa hora, além do único marinheiro que estava de guarda ao edifício marítimo. Um fim de tarde que, por qualquer combinação misteriosa da frouxidão da luz e do cheiro de alguma planta irreconhecida, traz a certos homens percepções da infância e de coisas futuras, e a outros a sensação de algo perdido e quase esquecido.

(…)

- Que nome vamos dar à criança, Clara?
- Se sair rapaz… gostavas que fosse Charley?
- Um Charley na família já chega. Vamos chamar-lhe Eduardo. Sabes, de certo modo, eu gostava do Eduardo. Era bastante novo para ser meu filho.
Pousou-lhe ao de leve a mão no ombro e sentiu-lhe o corpo sacudido de soluços. Queria confortá-la, mas não sabia como. Disse:
- Ele amava-te, Clara.
- Não, isso não é verdade, Charley.
- Ouvi-o uma vez dizer que tinha ciúmes de mim.
- Nunca o amei, Charley.
A mentira dela não significava nada para ele. Contradiziam-na as lágrimas. Num caso desses, estava certo mentir. Charley Fortnum sentiu um imenso alívio. Era como se, depois do que se lhe afigurava um tempo interminável de ansiosa espera na antecâmara da morte, alguém viesse dar-lhe boas e inesperadas notícias. Alguém que ele amava iria sobreviver. E compreendeu que nunca ela estivera tão perto dele como nessa ocasião.

Tradução: Maria Ondina Braga

1984, George Orwell







It was a bright cold day in April, and the clocks were striking thirteen. Winston Smith, his chin nuzzled into his breast in an effort to escape the vile wind, slipped quickly through the glass doors of Victory Mansions, though not quickly enough to prevent a swirl of gritty dust from entering along with him.


(...)


He gazed up at the enormous face. Forty years it had taken him to learn what kind of smile was hidden beneath the dark moustache. O cruel, needless misunderstanding! O stubborn, self-willed exile from the loving breast! Two gin-scented tears trickled down the sides of his nose. But it was all right, everything was all right, the struggle was finished. He had won the victory over himself. He loved Big Brother.

Memorias de mis putas tristes




Gabriel García Márquez
Memoria de Mis Putas Tristes
Barcelona, Ed. Mondadori - 2004


El año de mis noventa años quise regalarme una noche de amor loco con una adolescente virgen. Me acordé de Rosa Cabarcas, la dueña de una casa clandestina que solía avisar a sus buenos clientes cuando tenía una novedad disponible. Nunca sucumbí a ésa ni a ninguna de sus muchas tentaciones obscenas, pero ella no creía en la pureza de mis principios. También la moral es un asunto de tiempo, decía, con una sonrisa maligna, ya lo verás. Era algo menor que yo, y no sabía de ella desde hacía tantos años que bien podía haber muerto. Pero al primer timbrazo reconocí la voz en el teléfono, y le disparé sin preámbulos:

-Hoy sí.


(...)

Salí a la calle radiante y por primera vez me reconocí a mí mismo en el horizonte remoto de mi primer siglo. Mi casa, callada y en orden a las seis y cuarto, empezaba a gozar los colores de una aurora feliz. Damiana cantaba a toda voz en la cocina, y el gato redivivo enroscó la cola en mis tobillos y siguió caminando conmigo hasta mi mesa de escribir. Estaba ordenando mis papeles marchitos, el tintero, la pluma de ganso, cuando el sol estalló entre los almendros del parque y el buque fluvial del correo, retrasado una semana por la sequía, entró bramando en el canal del puerto. Era por fin la vida real, con mi corazón a salvo, y condenado a morir de buen amor en la agonía feliz de cualquier día después de mis cien años.

Deus sabe que mais



p. 13
É sempre numa casa que estamos sós. E não fora dela, mas dentro dela. No parque há pássaros, gatos. Mas, às vezes, também um esquilo, um furão. Não estamos sós num parque. Mas, em casa, estamos tão sós que, por vezes, nos perdemos. Sei, agora, que lá permaneci dez anos. Só. E para escrever livros que me fizeram saber, a mim e aos outros, que eu era a escritora que sou. Como é que isso se passou?

(...)

p. 130
Que também há criaturas animais sem identidade, bolsas de inchaços, doçura de uma pintura muito antiga que as teria identificado. Sinais que têm ar de ser coisas. Troncos de árvore que partem, abandonam. Torsos de serpente do mar em humidades de nascente, de espuma. Escorregadelas, aparecimentos, aproximações possíveis entre a ideia, a coisa, a sua inanidade, a matéria da ideia, da cor, da luz, e Deus sabe que mais.


Marguerite Duras, Escrever, 1994, Linda-a-Velha, Difel, tradução de Vanda Anastácio


o exórdio



Fernando Pessoa
Exórdio em prol da Filantropia e da Educação Física (páginas desconhecidas)
Porto, Ed. Cultura - 1955 (?)
Selecção e Comentários de Petrus
Desenhos de Almada Negreiros

Os milionários, e sobretudo os milionários americanos, que são popularmente os típicos, não gosam, em geral, de uma celebridade entusiástica. Do género de consideração que recebem dos que lhes são alheios, é exemplo cómico aquela frase de CHESTERON abre um dos seus contos: "Quer-me parecer que há uma centena de novelas policiarias que começam com a descoberta de que foi assassinado um milionário americano, acontecimento que, por qualquer motivo, é tido como uma espécie de desgraça".

(...)

Faço minhas as palavras do De Vitalis, mas por princípio e dever, não faço meu o seu vago pessimismo.