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The Moon and Sixpence


“He did not come much to Papeete after that, and about a year later it chanced that I had to go to that part of the island for I forgot what business, and when I had finished it I said to myself: "Voyons, why should I not go and see that poor Strickland?" I asked one or two natives if they knew anything about him, and I discovered that he lived not more than five kilometers from where I was. So I went.

I shall never forget the impression my visit made on me. I live on an atoll, a low island, it is a strip of land surrounding a lagoon, and its beauty is the beauty of the sea and sky and the varied colour of the lagoon and the grace of the cocoa-nut trees; but the place where Strickland lived had the beauty of the Garden of Eden. Ah, I wish I could make you see the enchantment of that spot, a corner hidden away from all the world, with the blue sky overhead and the rich, luxuriant trees. It was a feast of colour. And it was fragrant and cool. Words cannot describe that paradise.

And here he lived, unmindful of the world and by the world forgotten. I suppose to European eyes it would have seemed astonishingly sordid. The house was dilapidated and none too clean. Three or four natives were lying on the verandah. You know how natives love to herd together. There was a young man lying full length, smoking a cigarette, and he wore nothing but a pareo."


"The Moon and Sixpence", William Somerset Maugham, Dover Value Editions

O Fio da Navalha


"Difícil é andar sobre o aguçado fio de uma navalha; é árduo, dizem os sábios, é o caminho da Salvação."




"Eu fora admitido, durante a minha permanência em Chicago, como sócio temporário de um clube que dispunha de uma boa biblioteca; na manhã seguinte, fui até lá passar os olhos por uma ou duas revistas universitárias, que quem não é assinante tem dificuldade em obter. Era cedo e lá só havia mais uma pessoa, sentada numa vasta poltrona de couro e parecendo absorta na leitura. Foi com surpresa que reconheci Larry. Era a última pessoa que esperaria encontrar em tal lugar. Ergueu os olhos quando passei por ele, reconheceu-me e fez menção de se levantar.
- Não se incomode - disse eu. E depois, quase que automaticamente: - Que está a ler?
- Um livro - replicou ele, mas com um sorriso tão simpático que a secura da resposta não podia melindrar.
Fechou o livro e, fitando-me com aqueles seus olhos singularmente opacos, segurou-o de modo a não me deixar ver o título.
- Divertiu-se muito ontem à noite? - perguntei.
- Muitíssimo. Cheguei a casa às cinco da manhã.
- É uma façanha estar aqui tão cedo.
- Venho muito aqui. Em geral, a esta hora tenho a sala à minha disposição.
- Não o incomodarei.
- O senhor não está a incomodar-me - disse, sorrindo de novo; ocorreu-me então que o seu sorriso era de uma extraordinária doçura. Não animado, nem vivo; era um sorriso que parecia iluminar-lhe o rosto com alguma luz interior. Estava sentado num recanto formado por prateleiras salientes. Apoiou a mão no braço da poltrona a seu lado e prosseguiu: - Não quer sentar-se um pouco?
- Está certo.
Larry entregou-me o livro que segurava. Vi que se tratava de Principles of Psychology, de William James. É, naturalmente, uma obra clássica, e importante na história da ciência de que se ocupa; de agradável leitura, além do mais; mas não era o tipo de livro que esperaria ver nas mãos de de pessoa tão nova, um aviador, que dançara até às cinco da manhã.
- Porque lê isto? - perguntei.
- Sou muito ignorante.
- É também muito novo - repliquei sorrindo"



(...)



"- Era um homemzinho baixo de cabelos vermelhos, um irlandês - disse Larry. - Costumávamos chamar-lhe Patsy e tinha mais vivacidade que qualquer outra pessoa que jamais conheci. Céus, era como o azougue! Tinha uma cara engraçada e um sorriso engraçado, de modo que, só de olhar para ele, a gente sentia vontade de rir. Era um diabo temerário e fazia as maiores loucuras; estava sempre a ser chamado à ordem pelos superiores. Não sabia o que era medo e, depois de ter escapado da morte por um triz, o rosto alargava-se-lhe num sorriso, como se aquilo fosse a coisa mais engraçada deste Mundo. Mas era um aviador nato e, lá em cima, nas nuvens, sabia ser frio e cauteloso. Ensinou-me muita coisa. Era um pouco mais velho que eu e tomou-me sob a sua protecção; isto era realmente um pouco cómico, considerando-se que eu tinha bem umas seis polegadas a mais de altura que ele e, se por um acaso brigássemos, poderia pô-lo K.O. em dois tempos. Foi o que aconteceu, certa vez, em Paris, quando ele estava bêbado e fiquei com medo de que se metesse em algum sarilho.
Larry fez uma pausa e continuou:
- Não me sentia muito à vontade quando me reuni ao esquadrão e tinha medo de não me sair bem, mas ele obrigou-me a ter confiança em mim. Tinha ideias engraçadas acerca da guerra; não sentia ódio aos alemães; gostava de lutar e achava divertidíssimo combatê-los. Não podia considerar o facto de deitar abaixo um avião inimigo a não ser como uma coisa engraçadíssima. Era imprudente e louco e irresponsável, mas ao mesmo tempo, tão sincero que a gente não podia deixar de lhe querer bem. Daria a um companheiro a sua última moeda, com a mesma facilidade que aceitaria a dele. Se um de nós se sentia isolado, ou com saudades de casa, ou com medo, como algumas vezes me aconteceu, ele logo o percebia e, a cara feia a enrugar-se de riso, dizia exactamente aquilo que podia fazer a gente sentir-se bem outra vez.
Larry puxou uma cachimbada e Suzanne esperou que ele continuasse.
- Costumávamos manobrar de forma a ter as nossas licenças junto e, quando íamos para Paris, ficava endiabrado. Divertíamo-nos à grande. Íamos ter uns dias de licença, em princípios de Março, isto em 1918, e traçámos os nossos planos de antemão. Nada havia que não prentendêssemos fazer! Na véspera da partida, recebemos ordens de voar sobre as linhas inimigas e apresentar o nosso relatório. De súbito, demos com alguns aviões alemães e, quando menos esperávamos, estávamos no meio de uma batalha. Um deles perseguiu-me mas apanhei-o primeiro. Olhei para ver se ele ia cair e vi outro aparelho no meu encalço. Mergulhei para ver se escapava, mas o inimigo aproximou-se como um relâmpago e pensei que estava liquidado; nisto vi Patsy cair sobre ele como se fosse um raio e despejar-lhe todas as munições que tinha. Os alemães deram-se por vencidos e fugiram e nós voltámos às nossas linhas. O meu avião estava bastante avariado e mal consegui aterrar. Patsy chegara antes de mim. Quando desci do meu avião, vi que tinham acabado de o tirar do seu. Estava deitado no chã; esperavam que chegasse a ambulância. Ele sorriu, ao ver-me. Disse:
- Derrubei aquele tipo que vinha atrás de si.
- Que foi que aconteceu, Patsy? - perguntei.
- Oh, nada. Atingiu-me na asa.
Estava mortalmente pálido. De súbito uma expressão estranha cobriu-lhe o rosto. Só nesse momento percebeu que estava agonizante; a ideia da morte jamais lhe passara pela cabeça. Antes que alguém o pudesse impedir, sentou-se e soltou uma gargalhada:
- Ora, essa é boa!
Caíu morto. Tinha vinte e dois anos. Ia casar-se, quando acabasse a guerra, com a noiva que deixara na Irlanda."



"O Fio da Navalha", W. Somerset Maugham, Edição Livros do Brasil, 1967, Tradução de Lígia Junqueira Smith

Vivir para contarla

"La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla"


A realidade da Colômbia desconhecida do Mundo, a odisseia de um jovem de uma família pobre onde a dignidade é uma presença quase palpável. A miséria e a beleza, a nostalgia e o realismo mágico. A importância dos valores humanos. Uma obra é o seu autor também.

"Vivir para contarla", Gabriel García Márquez, Random House

El pintor de batallas



















Arturo Pérez-Re
verte
El pintor de batallas
Alfaguara, 1ª Ed., Março de 2006


"Numa torre junto do Mediterrânico, em busca da fotografia que nunca conseguiu fazer, um antigo fotógrafo de guerra pinta um grande fresco circular na parede da torre: a paisagem intemporal de uma batalha. Acompanham-no na tarefa um rosto que regressa do passado para cobrar uma dívida mortal, e a sombra de uma mulher desaparecida dez anos antes. À volta destas três personagens, Arturo Pérez-Reverte escreve a mais intensa e perturbadora história da sua longa carreira de escritor. El pintor de batallas (para já sem tradução em português) subjuga o leitor e arrasta-o através de uma complexa geometria do caos do século XXI: a arte, a ciência, a guerra, o amor, a lucidez e a solidão, combinam-se no vasto mural de um mundo que agoniza."

As experiências que Pérez-Reverte acumulou durante vinte e um anos como repórter de guerra são retiradas da mochila neste livro, uma recordação de tudo o que viveu, transmitindo-nos como muito poucos até agora o sofrimento, o rancor e o desespero que pode alcançar a alma humana. Não há tréguas neste livro, a trama urde-se devagar e minuciosamente como peças de um puzzle que, não parecendo, encaixam perfeitamente. Depois de ler este livro, uma certeza fica: há lugares de onde nunca se volta.

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