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água, cão, cavalo, cabeça


A velha que treme da cabeça, no café

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O silêncio, não como na missa ou no exército. O susto que nos suspende por completo vem de dentro. Como se os meus pés existissem no momento antes e desaparecessem no momento a seguir.
Vais morrer, meu caro. Prepara os teus sapatos pretos, é necessário comprar sapatos pretos, não te esqueças.
Uma velha sentada no café treme da cabeça, não a consegue segurar, por vezes faz mesmo o gesto (de a tentar agarrar), mas também já não tem força nas mãos, e a vida é reles, é banalidade, é asco e sangue. Nos cafés, nas camas com os amantes, na cadeira à espera da morte do pai, na rua, desprevenido, morre-se em todo o lado, em todo o espaço e em todo o tempo; já deve ter acontecido (às centenas) durante a missa, durante um funeral já milhares devem ter morrido, caíram no chão, pensa-se de imediato num desmaio: por quem choramos agora se há dois mortos e para onde vamos se há dois cortejos a avançar em direcções opostas?

(...)


TAVARES, M. Gonçalo, água, cão, cavalo, cabeça, Editorial Caminho, Lisboa, 2006.

Histórias Falsas



(para o jmnk, porque acho que ia gostar de ler)

“Vieram e atacaram e queimaram e massacraram e saquearam e desapareceram”, assim foi descrito, por um poeta famoso, um ataque mongol, e também assim poderia ser descrita a passagem do amor pelos corpos de Romeu e Julieta. Não os tornados famosos por Shakespeare, mas os outros, os que chegaram a velhos: os da cidade da Baviera.

(…)

Assim, ainda hoje, no centro da cidade, provavelmente no mesmo local onde o fogo ofereceu a carne dos antigos amantes a Deus ou ao diabo (ou aos dois), ainda aí, então, permanece a estátua de Santa Julieta da Baviera: a velha, mandada construir pelo imperador Conrado III, no longínquo ano de 900: milénio e meio depois de Heraclito ter pela última vez louvado a guerra e a discórdia (ou ter sido mal interpretado); e quase um milénio depois de Cristo ter levantado a ingénua hipótese do amor.

TAVARES, Gonçalo M, Histórias Falsas, Campo das Letras, Porto, 2005 (2ª edição).

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