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água, cão, cavalo, cabeça


A velha que treme da cabeça, no café

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O silêncio, não como na missa ou no exército. O susto que nos suspende por completo vem de dentro. Como se os meus pés existissem no momento antes e desaparecessem no momento a seguir.
Vais morrer, meu caro. Prepara os teus sapatos pretos, é necessário comprar sapatos pretos, não te esqueças.
Uma velha sentada no café treme da cabeça, não a consegue segurar, por vezes faz mesmo o gesto (de a tentar agarrar), mas também já não tem força nas mãos, e a vida é reles, é banalidade, é asco e sangue. Nos cafés, nas camas com os amantes, na cadeira à espera da morte do pai, na rua, desprevenido, morre-se em todo o lado, em todo o espaço e em todo o tempo; já deve ter acontecido (às centenas) durante a missa, durante um funeral já milhares devem ter morrido, caíram no chão, pensa-se de imediato num desmaio: por quem choramos agora se há dois mortos e para onde vamos se há dois cortejos a avançar em direcções opostas?

(...)


TAVARES, M. Gonçalo, água, cão, cavalo, cabeça, Editorial Caminho, Lisboa, 2006.

Os Poemas Possíveis


Metáfora
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Trago nas mãos um búzio ressoante
Onde os ventos do mar se reuniram,
e das mãos, ou do búzio murmurante,
alastra em cor e som irradiante
A beleza que os olhos despiram
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SARAMAGO, José, Os Poemas Possíveis, Editorial Caminho, Lisboa, 1985 (5º edição).

Deambulações Oblíquas


É porque nos decepcionamos
que procuramos a perfeição
O símbolo é o arco que abarca a totalidade
e por ele nós podemos alcançar
o que está do outro lado dela
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A transcendência do que não vemos
a outra face do todo
é uma perspectiva simbólica
inerente à imediata presença
da face que estamos vendo
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Assim o que vemos e o que não vemos
no objecto que estamos olhando
é a coisa em si que o animal não apreende
Não somos nunca o que está diante e separado
o que representa e o representado
em separada oposição
de ideia e objecto
de consciência e corpo
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O que em nós está separado
em espírito e em corpo
está ao mesmo tempo unido
numa tensão oblíqua
que nos insere no mundo
E como seres simbólicos
e como seres-no-mundo
somos o que já somos
somos o que ainda não somos

ROSA, António Ramos, Deambulações Oblíquas, Quetzal Editores, Lisboa, 2001.

ZEN E A ARTE DE AMAR


Nós estamos destinados a viver uma vida de amor. Quando não estamos apaixonados é porque algo de errado se passa. Infelizmente, muitos de nós resignamo-nos perante a desilusão, a perda e a desordem nas relações. Ainda que possamos ser muito bem-sucedidos em outras áreas da vida, a maioria de nós não sente que o mesmo grau de sucesso no amor seja um direito natural seu. "Ser realista no que toca aos relacionamentos" é a atitude que se considera natural à medida que "crescemos" e deixamos de alimentar fantasias, tolices, sonhos de infância. Mas nada poderia estar mais longe do que é natural. (....) Não nos apercebemos de que quando não estamos apaixonados algo não está bem.
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Estar apaixonado é a coisa mais madura e realista que se pode fazer. Traz energia às nossas vidas, preenche-nos com uma disposição positiva, desperta a generosidade e torna cada momento pleno de beleza. Estar apaixonado dissipa de forma imediata a sensação de falta de propósito e de desconecção com que muitos se confrontam. O corpo é sarado, o coração fica feliz.
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Estar apaixonado é o nosso estado natural.
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(...)
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SHOSHANNA, Brenda, Zen e a Arte de Amar, Editorial Presença, Lisboa, 2006.

Histórias Falsas



(para o jmnk, porque acho que ia gostar de ler)

“Vieram e atacaram e queimaram e massacraram e saquearam e desapareceram”, assim foi descrito, por um poeta famoso, um ataque mongol, e também assim poderia ser descrita a passagem do amor pelos corpos de Romeu e Julieta. Não os tornados famosos por Shakespeare, mas os outros, os que chegaram a velhos: os da cidade da Baviera.

(…)

Assim, ainda hoje, no centro da cidade, provavelmente no mesmo local onde o fogo ofereceu a carne dos antigos amantes a Deus ou ao diabo (ou aos dois), ainda aí, então, permanece a estátua de Santa Julieta da Baviera: a velha, mandada construir pelo imperador Conrado III, no longínquo ano de 900: milénio e meio depois de Heraclito ter pela última vez louvado a guerra e a discórdia (ou ter sido mal interpretado); e quase um milénio depois de Cristo ter levantado a ingénua hipótese do amor.

TAVARES, Gonçalo M, Histórias Falsas, Campo das Letras, Porto, 2005 (2ª edição).

Loucura


A morte de Raul Vilar foi muito lamentada. Todos os jornais consagraram longos artigos ao grande escultor. Fazendo o seu elogio, escreveram-lhe a biografia, catalogaram-lhe as obras - entre as quais avulta esse admirável baixo-relevo "Amor" - e concordaram unanimemente em que o seu permaturo falecimento havia sido uma grave perda para a arte nacional. Depois, os anos decorreram. Hoje, poucos se lembrarão já do pobre Raul. É por isso mesmo que me decido a falar dele. Para o fazer, ninguém mais competente do que eu. Fui o seu maior amigo, o seu único amigo.
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Que as minhas intenções não sejam desvirtuadas: este escrito tem por fim simplesmente pôr em evidência todos os elementos que possam servir de base para o estudo duma singularíssima psicologia; que possam tornar compreensível a incompreensível tragédia de uma alma, explicar o inexplicável suicídio.
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(...)
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Raul queria provar o seu amor. Para isso decidiu praticar um crime. Todos o condenam, decerto. No entanto, o que ninguém pode negar é que a sua prova, embora de um egoísmo atroz, não fosse a mais concludente, a maior prova de amor, como lhe chamava. "Só se ama por interesse. Não se ama um corpo disforme". Ele possuia uma criatura ideal; pois bem, destruiria toda a sua beleza. O seu amor não diminuiria... pelo contrário. Morto o corpo, amaria a alma só com a sua alma.
Isto tudo são loucuras, sei perfeitamente. Apenas no cérebro dum doido podem nascer tais pensamentos. Nós, os "homens de juízo", não pensamos nessas coisas, não pensamos em muitas coisas porque aceitámos a vida tal como ela é, tal como se convencionou que ela fosse; porque nos habituámos a ela. Raul não se habitou. Foi um desgraçado. (...)
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Sá-Carneiro, Mário, Loucura, Edições Rolim, Lisboa, 1990 (4ª edição).

A Substância do Amor

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Jorge Luís Borges soube que tinha morrido quando, tendo fechado os olhos para melhor escutar o longínquo rumor da noite crescendo sobre Genebra, começou a ver. Distinguiu primeiro uma luz vermelha, muito intensa, e compreendeu que era o fulgor do sol filtrado pelas suas pálpebras. Abriu os olhos, inclinou o rosto, e viu uma fileira de densas sombras verdes. Estava estendido de costas numa plantação de bananeiras. Aquilo deixou-o de mau humor. Bananeiras?! Ele sempre imaginara o paraíso como uma enorme biblioteca: uma sucessão interminável de corredores, escadas e outros corredores, ainda mais escadas e novos corredores, e todos eles com livros até ao tecto.
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(...)
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Ela queira que ele lhe inventasse nomes, sei lá, Vosso Esplendor, Musa Paradisíaca (o nome latino da bananeira), Estrela da Manhã. Coisas assim, tanto pior se parecessem ridículas. Queria declarações personalizadas. Não lhe bastava saber que era a única mulher na vida dele. Queira que ele a fizesse sentir a Única Mulher.
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A Mãe concordou. Porém, ficou aborrecida. O genro era um chato, tinha de reconhecer, mas jogava muito bem xadrez. Sempre que ela ganhava ele dizia: "hoje deixei-a ganhar". A sogra sorria:
- Não. Hoje eu deixei-te perder.
(As mulheres são sempre mais originais).
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AGUALUSA, José Eduardo, A Substância do Amor e outras crónicas, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000 (2ª edição).

O Sabor das Trevas (Romance-alegoria dos Tempos Amargos)


O despertador retiniu com fúria luminosa na mesinha de cabeceira e o senhor Retrós enfiou os pés nas chinelas atarantadas. A seguir, no laboratório da casa de banho, rasgou o peito com um bisturi de metal fantástico e substituiu o coração pelo despertador. Isto depois de regulá-lo convinientemente para que, de meia em meia hora com toques estrídulos, lhe recordasse que existia.
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... Onde Nóseu e Nóstodos esperamos pelo pólen cósmico do teu Amor - a única luz sempre jovem nos olhos dos homens. O único suor que escorrega dos nossos corpos e torna humano o universo, com estrelas de carne e osso e bocas de lábios carnudos que nenhum frio apaga.
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FERREIRA, José Gomes, O Sabor das Trevas, Romance-alegoria dos Tempos Amargos, Moraes Editores, Lisboa, 1978 (2ª edição).

As Crisálidas



Quando era muito pequeno sonhava às vezes com uma cidade - o que era estranho porque tais sonhos começaram antes mesmo de eu saber o que era uma cidade. Mas essa cidade, aninhada na curva de uma grande baía azul, vinha-me ao pensamento. Via as ruas e os edifícios que as ladeavam, a zona ribeirinha e até os barcos no porto - embora, acordado, nunca tivesse visto o mar, nem um barco...
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(...)
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Era exactamente como eu vira nos meus sonhos. Um sol mais brilhante do que Waknuk jamais conhecera jorrava sobre a larga baía azul onde as séries de ondas coroadas de branco avançavam lentamente para a praia. Barcos pequenos, alguns com velas coloridas e outros sem velas nenhumas, dirigiam-se para o porto, onde já se encontravam outras embarcações. Aglomerada ao longo da costa, e tornando-se menos densa à medida que se estendia na direcção dos montes, ficava a cidade com as suas casas brancas incrustadas entre parques verdes e jardins. Consegui até distinguir os pequenos veículos que circulavam pelas largas avenidas ladeadas de árvores. Um pouco para o interior, ao lado de um quadrado verde, uma luz forte piscava numa torre e uma máquina do feitio de um peixe descia, a flutuar.
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Era tão familiar que quase me iludi. Momentaneamente, imaginei que acordaria e me encontraria na minha cama, em Waknuk. Peguei na mão de Rosalind, para me convencer da realidade.
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- É real, não é? Tu também vês? - perguntei-lhe.
- É lindo, David. Nunca pensei que pudesse haver uma coisa tão encantadora. E há mais qualquer coisa, de que nunca me falaste.
- O quê?
- Escuta, não sentes? Abre mais a tua mente... Petra, querida, se pudessses parar um momento de transmitir os teus pensamentos radiantes...
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Fiz o que ela me mandou. Apercebi-me de que o piloto da nossa máquina comunicava com alguém, em baixo, mas atrás disso, como um fundo, havia algo de novo e desconhecido para mim. Em termos de som, não seria diferente do zumbido de um cortiço de abelhas; em termos de luz, uma claridade velada.
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- Que é? - perguntei, intrigado.
- Não adivinhas, David? É gente, montes e montes de gente do nosso género!
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Calculei que ela devia ter razão e prestei atenção durante um bocado - até a excitação de Petra levar a melhor sobre ela e eu ser obrigado a proteger-me.
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Agora sobrevoávamos terra e olhámos para baixo, para a cidade que vinha ao nosso encontro.
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- Começo finalmente a acreditar que é real e verdadeiro - disse a Rosalind. - Tu nunca estiveste comigo, das outras vezes.
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Ela virou a cabeça. A Rosalind interior estava no seu rosto, a sorrir de olhos brilhantes. A armadura caíra. Deixou-me olhar debaixo dela. Era como uma flor a abrir.
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- Desta vez, David... - começou.
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Depois o seu pensamento foi apagado. Cambaleámos e levámos as mãos à cabeça. Até o chão debaixo dos nossos pés tremeu um pouco.
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Vieram protestos angustiados de todas as direcções.
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- Oh, perdão! - desculpou-se Petra, dirigindo-se à tripulação da nave e à cidade em geral. - Mas é terrivelmente excitante!
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- Desta vez, querida, perdoamos-te - respondeu-lhe Rosalind. - É, de facto.
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WYNDHAM, John, As Crisálidas, Editorial Caminho, Lisboa, 1984.

três homens num barco (já para não falar do cão)

Três inválidos - Sofrimentos do George e do Harris - Uma vítima de cento e sete doenças fatais - Receitas úteis - Cura para os padecimentos do fígado nas crianças - concordamos que estamos extenuados e que precisamos de descanso - Uma semana no mar revolto - O George sugere o rio - O Montmorency objecta - Moção original vence por uma maioria de três contra um.

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E o Montmorency, sentado nas patas traseiras, em frente à janela, olhando para a noite, deu um latido breve, apoiando decididamente aquele brinde.

JEROME, Jerome K., Três homens num barco (já para falar do cão), Edições Cotovia, Lisboa, 2004.

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