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confissões sem fim

Thomas Mann
As confissões de Félix Krull
Cavalheiro de Indústria
Relógio D'Água Ed., Junho 2003


Nas horas vagas da minha aposentação, no momento em que pego na pena para registar as minhas recordações (são de corpo, mas cansado, tão cansado que a narrativa avançará por pequenas etapas, mas com frequentes interrupções), no momento - dizia - em que, com a minha letra nítida e agradável, me preparo para fazer as minhas confissões ao paciente papel, sou assaltado por um escrúpulo fugitivo. Com a minha cultura e a minha instrução, estarei eu à altura deste empreendimento intelectual? Como o que tenho a dizer se refere às minhas experiências, erros e paixões estritamente pessoais e directos, a minha dúvida incide apenas sobre o ritmo e a qualidade do meu modo de expressão. Ora eu penso que, em assuntos desses, os estudos aturados e levados até ao fim têm menos importância do que uma vocação natural e uma educação cuidada desde o berço.

(...)

- Maria - gritei.
- Ah! - gritou ela, também com uma alegria violenta. Um turbilhão de forças primitivas levou-me ao reino das delícias. E mais tempestuosamente que durante o sangrento espectáculo ibérico vi, sob as minhas ardentes carícias, palpitar muito alto seio real.

por debaixo do céu

Thomas Mann
Doutor Fausto
Trad. Herberto Caro
Pub. D Quixote, 2ªEd., 1999

Faço questão de assegurar com toda a clareza que não tenho qualquer intenção de colocar a minha pessoa num lugar de destaque, ao escrever algumas palavras acerca de mim mesmo e das minhas próprias actividades, antes de iniciar o relato da vida do finado Adrian Leverkühn, a primeira e certamente muito provisória biografia do saudoso homem e músico genial, que o destino tão terrivelmente assolou, engrandecendo-o e derribando-o.


(...)

Nessa altura, a Alemanha, as faces ardentes da febre, no apogeu de selvagens triunfos, cambaleava, ébria, a ponto de conquistar o mundo, graças a um pacto ao qual tencionava manter-se fiel e que assinara com o seu sangue. Hoje, cai de desespero em desespero, cingida por demónios, cobrindo um dos olhos com a mão e cravando o outro num quadro horroroso. Quando alcançará o fundo do abismo? Quando raiará, no meio da derradeira desolação, um milagre superior a qualquer fé, a luz da esperança? Um homem solitário junta as mãos e diz: "Que Deus tenha misericórdia das vossas pobres almas, meu amigo, minha pátria!"

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