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antes que anoiteça



Reinaldo Arenas
"Antes que anoiteça"
Edições Asa, 2ª edição , 2001
(tradução: Pedro Tamen)


Eu pensava morrer no Inverno de 1987. Tinha, havia meses, umas febres terríveis. Consultei um médico e o diagnóstico foi SIDA. Como me sentia pior de dia para dia, comprei uma passagem para Miami e decidi morrer perto do mar. Não especificamente em Miami, mas na praia. Mas parece que, por um burocratismo diabólico, tudo o que se deseja se faz esperar, até a morte.


[...]

Por outro lado, não se praticava a prostituição, mas o prazer; era o desejo de um corpo por outro corpo, era a necessidade de satisfação. O prazer realizado entre dois homens era uma espécie de conspiração; algo que se dava na sombra ou em pleno dia, mas clandestinamente; um olhar, um piscar de olhos, um gesto, um sinal, eram suficientes para iniciar o gozo total. A aventura em si mesma, mesmo quando não chegava a culminar no corpo desejado, era já um prazer, uma surpresa.

[...]

Queria escrever e não podia; duas ou três linhas depois de começar soltava o papel e chorava de impotência. Eu dizia-lhe que ele era um escritor mesmo que nunca conseguisse escrever uma só folha, e isso consolava-o. queria que eu o ensinasse a escrever, mas escrever não é uma profissão, é antes uma espécie de maldição; o mais terrível é que ele tinha sido tocado por essa maldição, mas o estado em que os seus nervos se encontravam impedia-o de escrever. Nunca gostei tanto dele como naquele dia em que o vi sentado diante do papel em branco, chorando de impotência por não saber escrever.

[...]

Exorto o povo cubano, tanto no exílio como na Ilha, a que continue a lutar pela liberdade. A minha mensagem não é uma mensagem de derrota, mas de luta e de esperança.
Cuba há-de ser livre. Eu já o sou.

os homens do renascimento

Vida de Miguel Angelo
por Agostinho da Silva
Ed. do Autor, Famalicão, 1942


Messer Ludovico Buonarroti, Podestá de Caprese e de Chiusi, era um dos mais distintos cidadãos da Florença do Renascimento e pertencia a uma família que se notabilizara no ambiente comercial da cidade e pretendia, por outro lado, ser de ascendência nobre; casou com Francesca del Sera e, a 6 de Março de 1475, nasceu-lhe um segundo filho a que deu o nome de Miguel Angelo.

(...)

Com os mortos, galopa Miguel Angelo, já em Roma, pelas ruas desertas, nas noites de luar e nas noites de tempestade, pelas estradas ladeadas de túmulos, ou com êles visita, no silêncio nocturno, as obras de S. Pedro que terá de deixar incompleta mas como tal marca do seu génio que os seus sucessores lhe terão de seguir o plano; a 14 de Fevereiro de 1564 saíu mais uma vez sob as bátegas violentas e só voltou de madrugada, a arder em febre: deitou-se umas horas, depois levantou-se, passou a uma cadeira, ficou diante da lareira, a olhar o fogo, a ouvir o crepitar da lenha, quando o tumulto do carnaval romano se aplacava mais um pouco; vieram os seus amigos e Tomaso Cavalièri tomou-lhe a mão, num adeus a quem o adorara e para sempre partia; ao terceiro dia, levaram-no de novo para a cama, já sem nenhuma resistência; e a 18, a vélha companheira, seu tormento e seu guia, a Morte que sempre implorara e que sempre combatera, veio de leve e de leve o desprendeu das cadeias do tempo.

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